Como trabalhar valores e convivência na Pré-escola

Trabalhar valores e convivência na Pré-escola é uma das tarefas mais importantes da educação infantil. Antes mesmo de aprender letras e números, as crianças precisam aprender a conviver: compartilhar, esperar sua vez, expressar sentimentos, cooperar, pedir desculpas, resolver conflitos e se relacionar com respeito. Esses aprendizados não acontecem de forma automática — são construídos diariamente nas interações, nas brincadeiras e nas experiências que vivem com colegas e adultos.

A BNCC (2017) destaca que um dos direitos essenciais da criança na educação infantil é o direito de “Conviver”, afirmando que as crianças devem ter oportunidades de interagir, dialogar e participar de práticas sociais em ambientes acolhedores. Segundo o documento:

“As crianças têm o direito de conviver, interagir e participar de diferentes práticas sociais, aprendendo com as diferenças e ampliando suas formas de relação.” (BRASIL, 2018)

Isso significa que trabalhar valores não é algo “extra” ou separado da rotina — é parte natural do cotidiano e deve estar presente em cada gesto, cada organização de espaço e cada atitude do professor.

Especialistas como Zilma Ramos de Oliveira reforçam que a convivência é um eixo estruturante da educação infantil, afirmando que: “A construção da convivência acontece nas relações reais, no cotidiano da sala, nos encontros e desencontros entre as crianças.” (OLIVEIRA, 2010)

Neste artigo, vamos mostrar como trabalhar valores e convivência de forma prática na Pré-escola: estratégias do dia a dia, projetos inspiradores, formas de mediação de conflitos, participação das famílias e maneiras de avaliar o desenvolvimento socioemocional das crianças.

Imagem ilustrativa: A mediação e o acolhimento transformam os pequenos conflitos em grandes oportunidades de aprendizado e convivência respeitosa

O que são valores na Educação Infantil?

Valores são princípios que orientam nossas ações, escolhas e formas de relacionamento. Na Educação Infantil, eles aparecem nas pequenas situações cotidianas: quando a criança ajuda um colega, quando espera sua vez, quando cuida de um brinquedo, quando expressa seus sentimentos ou quando resolve um conflito com a mediação do adulto.

Ao contrário do que muitas vezes se imagina, valores não são ensinados por meio de discursos, frases prontas ou sermões. Eles se constroem na prática, por meio das experiências vividas no ambiente escolar e da forma como adultos e crianças se relacionam entre si.

Na Pré-escola, trabalhar valores significa proporcionar oportunidades para que as crianças vivenciem respeito, cooperação, solidariedade, empatia, responsabilidade, escuta, acolhimento e cuidado — e não apenas ouçam sobre esses conceitos.

Do ponto de vista teórico, Vygotsky (1998) afirma que é na interação com o outro que a criança se constitui como sujeito: “É na relação com o outro que a criança se forma, aprende e atribui sentidos ao mundo.” Ou seja, convivência e formação humana caminham juntas.

Zilma Ramos de Oliveira explica que a construção da convivência acontece no cotidiano, nos encontros e desencontros entre as crianças, nas conversas espontâneas, nas brincadeiras e nas mediações feitas pelo professor (OLIVEIRA, 2010). Por isso, trabalhar valores exige intencionalidade, sensibilidade e presença ativa do adulto.

Valores na Educação Infantil não são conceitos abstratos — são atitudes concretas construídas na rotina, que ajudam a criança a desenvolver consciência emocional, social e ética.

Valores e convivência na BNCC: onde aparecem?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apresenta de forma clara a importância da convivência e da formação de valores na Educação Infantil. Entre os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento, o primeiro deles é justamente “Conviver”. Isso já demonstra que, para o documento, aprender a se relacionar, escutar, expressar sentimentos e construir relações de respeito é tão essencial quanto aprender conteúdos acadêmicos.

A BNCC afirma: “As crianças têm o direito de conviver, participar e interagir, aprendendo com as diferenças e ampliando suas formas de relação no mundo.” (BRASIL, 2018). Essa perspectiva indica que valores não devem ser tratados como um tema ocasional, mas como parte fundamental das práticas pedagógicas cotidianas.

Dentro dos Campos de Experiência, o que mais diretamente trata dos valores é: O eu, o outro e o nós. Nesse campo, encontram-se habilidades relacionadas a:

  • reconhecer e nomear sentimentos;
  • lidar com frustrações com apoio do adulto;
  • respeitar regras simples da convivência;
  • cooperar em pequenas tarefas;
  • compreender que diferentes pessoas têm diferentes pontos de vista;
  • resolver conflitos com diálogo e mediação.

Já em Escuta, fala, pensamento e imaginação, aparecem habilidades de:

  • expressar opiniões;
  • escutar colegas;
  • participar de conversas com respeito.

E em Corpo, gestos e movimentos, encontramos habilidades que envolvem o corpo como forma de interação e comunicação.

Todas essas partes do documento reforçam que a convivência é aprendida por meio de interações reais — nas brincadeiras, nas disputas, no diálogo e no cuidado mútuo. É uma construção diária, feita em parceria entre professores e crianças.

Estratégias práticas para trabalhar valores no dia a dia

Trabalhar valores na Pré-escola não exige atividades complicadas ou longas sequências didáticas. Na verdade, os valores são construídos principalmente no cotidiano, nas pequenas ações, nas interações espontâneas e nas decisões pedagógicas que o professor toma a cada momento. Quanto mais intencionalidade houver nesses momentos, mais rica será a aprendizagem.

Estratégias simples, eficazes e alinhadas à BNCC para fortalecer os valores na rotina escolar:

1. Roda de conversa diária: A roda é o espaço mais poderoso para trabalhar convivência.
Permite que as crianças:

  • compartilhem como estão se sentindo;
  • conversem sobre conflitos;
  • resolvam problemas em grupo;
  • pratiquem escuta ativa;
  • expressem opiniões.

A mediação sensível do professor ensina respeito, argumentação e empatia.

2. Histórias que trabalham emoções e convivência: A literatura infantil é um recurso riquíssimo. Após a história, proponha conversas:

  • “Como o personagem se sentiu?”
  • “O que poderíamos fazer se isso acontecesse aqui?”
  • “Como ajudaríamos alguém triste?”

Isso ajuda as crianças a nomear sentimentos e pensar em soluções.

3. Jogos cooperativos – Diferente dos jogos competitivos, nesses todos ganham juntos. Exemplos:

  • lençol cooperativo;
  • desafios de percurso em equipe;
  • construir algo coletivamente.

Trabalham: ajuda mútua, cooperação, comunicação e vínculo.

4. Combinados da turma (construídos coletivamente): As regras devem nascer das necessidades da turma. Ao construir juntos, as crianças entendem por que cada regra existe, e não apenas “obedecem”.

5. Rotinas de cuidado

  • cuidar das plantas;
  • arrumar os cantinhos;
  • ser “ajudante do dia”;
  • cuidar dos materiais coletivos.

Essas tarefas desenvolvem responsabilidade e pertencimento.

6. O professor como modelo: Segundo Kishimoto (2008), as crianças aprendem valores principalmente observando adultos.  Portanto, tom de voz, postura, respeito e acolhimento do professor são lições vivas.

Projetos pedagógicos sobre valores

Projetos pedagógicos são excelentes ferramentas para trabalhar valores com profundidade. Eles dão continuidade ao tema, permitem investigação, garantem vivências práticas e envolvem toda a turma. Além disso, estão em total consonância com a BNCC, que orienta propostas que envolvam participação, criação, interação e resolução de conflitos.

5 projetos criativos, acessíveis e fáceis de aplicar na Pré-escola:

Projeto 1 – “Amigos da Natureza”

Valores trabalhados: cuidado, responsabilidade, colaboração.

Atividades:

  • plantio de horta;
  • cuidado diário com plantas;
  • coleta seletiva;
  • “detetives da água” para evitar desperdício;
  • mutirões de limpeza do pátio.

Resultados esperados: crianças mais conscientes sobre cuidado com o ambiente.

Projeto 2 – “Sentimentos que moram em mim”

Valores: empatia, autorregulação, respeito.

Atividades:

  • roda das emoções;
  • cartões das emoções;
  • histórias sobre sentimentos;
  • mural “Como eu estou hoje?”;
  • relaxamento, respiração e mindfulness infantil.

Resultados: ampliação da consciência emocional e respeito ao outro.

Projeto 3 – “Nosso grupo, nossa turma”

Valores: pertencimento, cooperação, respeito às diferenças.

Atividades:

  • criação da bandeira da turma;
  • retratos dos colegas;
  • “caixa das qualidades”;
  • entrevistas entre as crianças;
  • jogos coletivos.

Resultados: fortalecimento dos vínculos do grupo.

Projeto 4 – “Pequenos mediadores”

Valores: diálogo, paciência, autorregulação, autonomia.

Atividades:

  • cantinho da paz;
  • técnicas de resolução de conflitos;
  • roda para conversas difíceis;
  • mediação guiada pelo professor.

Resultados: crianças mais responsáveis e capazes de lidar com conflitos.

Projeto 5 – “Juntos Somos Mais Fortes”

Valores: cooperação, solidariedade, respeito.

Atividades:

  • desafios de engenharia em grupo;
  • grandes construções coletivas;
  • caça ao tesouro cooperativa;
  • jogos em que “ninguém perde”.

Resultados: espírito colaborativo e redução de conflitos.

Zabalza (2006) afirma que projetos ampliam o desenvolvimento emocional e social ao promover vivências cooperativas e reais de convivência.

Como lidar com conflitos de maneira pedagógica

Os conflitos fazem parte da vida e, portanto, fazem parte do cotidiano da Pré-escola. Eles não devem ser vistos como problemas a serem eliminados, mas como oportunidades de aprendizagem. É nos conflitos que as crianças aprendem a negociar, a escutar o outro, a argumentar, a lidar com frustrações e a construir novas formas de relação.

Para trabalhar conflitos de maneira pedagógica, o papel do professor é fundamental. Ele atua como mediador, ajudando as crianças a nomear emoções, expressar necessidades e encontrar soluções que respeitem a todos.

A BNCC (2018) reforça que a Educação Infantil deve promover atitudes de respeito, solidariedade, diálogo e convivência. Essas atitudes são desenvolvidas exatamente nos momentos de tensão, quando o adulto orienta a criança a considerar o ponto de vista do outro.

Passos simples para mediar conflitos

1. Acolher e escutar: Permitir que cada criança conte o que aconteceu, sem interrupções. Isso valida sentimentos e mostra que todos têm direito de falar.

2. Nomear sentimentos: Ajudar a criança a identificar emoções: “Você ficou triste?”, “Parece que está frustrado?”, “Você queria o brinquedo?”

3. Explicar com clareza: Mostrar o ponto de vista do outro e explicar a situação com calma.

4. Buscar soluções juntos: Perguntar: “O que podemos fazer para resolver?” “Como vocês podem brincar juntos?” As crianças costumam propor soluções surpreendentemente adequadas.

5. Reforçar combinados da turma: Lembrar as regras construídas coletivamente.

Tardif (2014) afirma: “Os saberes docentes se revelam na capacidade de mediar relações e promover aprendizagem emocional.” A mediação sensível transforma conflitos em chances valiosas de crescimento.

Famílias e escola: parceria necessária

O trabalho com valores e convivência na Pré-escola não pode acontecer apenas dentro da sala. Ele precisa ser reforçado também em casa, para que as crianças percebam coerência entre os ambientes e consolidem atitudes de respeito, empatia, diálogo e responsabilidade.

A parceria entre escola e família é essencial para garantir que as crianças tenham referências consistentes. Segundo Zilma Ramos de Oliveira (2010), a continuidade entre os ambientes educativos é fundamental para que a criança se sinta segura e compreenda o sentido das práticas sociais:

“A relação com a família é fundamental para a continuidade educativa da criança e para o fortalecimento de vínculos afetivos e sociais.” (OLIVEIRA, 2010). Quando escola e família caminham juntas, as crianças têm mais clareza sobre os combinados, aprendem a lidar com emoções e compreendem mais facilmente o valor da convivência.

Como envolver as famílias de forma leve e efetiva

1. Bilhetes explicativos com linguagem acolhedora: Explicar por que determinado valor está sendo trabalhado e como a família pode reforçar em casa.

2. Reuniões formativas curtas e práticas: Conversas rápidas sobre resolução de conflitos, rotina, emoções, combinados.

3. Projetos conjuntos. Exemplo:

  • mural “Ações de gentileza da minha família”;
  • campanha de doação;
  • plantio de mudas.

4. Acolhimento diário na entrada e saída: Espaços para diálogo informal fortalecem vínculos.

5. Comunicação sem julgamentos: Evitar rótulos e críticas; focar sempre em soluções e evolução.

Uma relação harmônica entre escola e família cria um ambiente mais equilibrado, fortalecendo o desenvolvimento emocional das crianças e reduzindo conflitos.

Avaliação do desenvolvimento socioemocional na Pré-escola

Avaliar o desenvolvimento socioemocional na Pré-escola é um processo contínuo, sensível e qualitativo. Não envolve notas, testes ou classificações. Envolve observar como a criança se relaciona, como reage às emoções, como resolve conflitos, como coopera e como participa das experiências coletivas.

A BNCC reforça que a avaliação na Educação Infantil deve ser formativa, baseada em observações constantes do professor, registros e documentações que permitam compreender o percurso da criança — e não medir desempenho (BRASIL, 2018).

O que observar ao avaliar valores e convivência?

1. Empatia: A criança percebe sentimentos dos colegas? Demonstra preocupação?

2. Autonomia emocional: É capaz de identificar o que sente? Precisa de muita ajuda ou já utiliza estratégias?

3. Cooperação: Ajuda colegas? Aceita participar de atividades em grupo?

4. Comunicação e diálogo: Expressa suas ideias? Escuta o outro? Consegue negociar?

5. Resolução de conflitos: Precisa sempre da intervenção do adulto ou já tenta resolver sozinha?

Instrumentos de registro recomendados

  • Portfólios com fotos, desenhos e produções;
  • Relatórios descritivos trimestrais;
  • Observações em diário de bordo;
  • Registros de situações de convivência;
  • Rodas de conversa com devolutivas do grupo.

Esses instrumentos ajudam a acompanhar a evolução de cada criança de forma cuidadosa e respeitosa.

Zabalza (2006) afirma: “Avaliar é compreender o percurso da criança, não classificá-la.” Esse olhar cuidadoso garante que a avaliação socioemocional seja um processo humanizado e coerente com as necessidades da infância.

Considerações finais

Trabalhar valores e convivência na Pré-escola é um processo contínuo, sensível e extremamente significativo. A infância é o momento em que as bases da vida social começam a se formar: as noções de respeito, diálogo, empatia, responsabilidade, cooperação e cuidado nascem nas pequenas interações do cotidiano. É nesse período que a criança aprende a conviver com diferenças, a expressar sentimentos, a lidar com frustrações e a construir relações saudáveis.

A BNCC reforça que garantir o direito de “Conviver” é tão essencial quanto promover aprendizagens cognitivas. Isso significa que ensinar valores não é um “extra”, mas um componente essencial da prática pedagógica. E isso se faz por meio de ambientes acolhedores, brincadeiras significativas, escuta ativa, mediação sensível e ações intencionais no dia a dia.

Como mostram autores como Zabalza, Zilma Ramos de Oliveira, Vygotsky e Tardif, a convivência não se aprende por meio de lições prontas, mas nas experiências reais: nos conflitos, nas soluções, nas trocas, nas brincadeiras coletivas e na relação com adultos que servem como modelos de respeito e empatia.

Trabalhar valores é investir no desenvolvimento humano de forma profunda — é formar sujeitos mais conscientes, solidários, responsáveis e preparados para viver em sociedade.

Referências

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias. São Paulo: Cortez, 2008.

OLIVEIRA, Zilma Ramos de Moraes. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2010.

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014.

VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ZABALZA, Miguel. Qualidade na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2006.

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