BNCC no Maternal: o que muda no desenvolvimento das crianças de 2 a 3 anos

A Educação Infantil é a primeira etapa da Educação Básica e tem papel essencial no desenvolvimento integral das crianças. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz diretrizes claras sobre habilidades e competências que devem ser estimuladas desde os primeiros anos de vida, especialmente entre 2 e 3 anos, período correspondente ao Maternal. Segundo a BNCC (BRASIL, 2017), a Educação Infantil deve promover experiências que favoreçam o desenvolvimento cognitivo, motor, social e emocional da criança, garantindo o direito à aprendizagem e à brincadeira.

Nesta faixa etária, as crianças começam a consolidar habilidades de linguagem, autonomia e socialização, tornando-se fundamental que os educadores planejem atividades de acordo com os Campos de Experiência da BNCC. Conforme Piaget (1978), o desenvolvimento cognitivo nessa idade é caracterizado pelo início do pensamento simbólico e pela exploração ativa do ambiente, sendo a interação com adultos e colegas essencial para o aprendizado.

Este artigo tem como objetivo analisar as mudanças no desenvolvimento das crianças de 2 a 3 anos decorrentes da implementação da BNCC no Maternal, destacando os impactos na prática pedagógica, nas habilidades socioemocionais e cognitivas, e sugerindo estratégias educativas alinhadas às normas oficiais.

Fotografia de uma sala de maternal ampla e ensolarada, onde crianças de diversas etnias, entre 2 e 3 anos, exploram diferentes estações de aprendizagem. Algumas montam blocos coloridos, outras desenham com giz de cera, enquanto uma professora, agachada ao nível das crianças, incentiva a interação social. Ao fundo, estantes organizadas exibem livros infantis, cestos de materiais sensoriais e brinquedos educativos de madeira, refletindo um ambiente planejado para o desenvolvimento integral e o protagonismo infantil conforme a BNCC.
Imagem ilustrativa: Um ambiente rico em estímulos e materiais diversos é o “terceiro educador” que possibilita o desenvolvimento de conceitos culturais e históricos através do brincar.

O que é a BNCC e sua importância na Educação Infantil

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento normativo que estabelece os direitos de aprendizagem e desenvolvimento de todas as crianças na Educação Básica brasileira. No contexto da Educação Infantil, a BNCC define competências, habilidades e Campos de Experiência que orientam a prática pedagógica, garantindo que todas as crianças tenham acesso a oportunidades de desenvolvimento integral (BRASIL, 2017).

A BNCC organiza a Educação Infantil em cinco Campos de Experiência:

  1. O eu, o outro e o nós – relações afetivas, socialização e empatia;
  2. Corpo, gestos e movimentos – desenvolvimento motor e consciência corporal;
  3. Traços, sons, cores e formas – expressão artística e criatividade;
  4. Escuta, fala, pensamento e imaginação – linguagem, pensamento e comunicação;
  5. Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações – início da noção de números, espaço e tempo.

Para além de uma visão puramente biológica do crescimento, Fleer (2010) defende que o desenvolvimento infantil é um processo cultural-histórico. Nesse sentido, as brincadeiras no Maternal não são meras distrações, mas o palco onde o bebê, mediado pelo educador e pela cultura, começa a construir suas primeiras formas de pensamento e imaginação.

A BNCC contribui para a formação contínua dos educadores, oferecendo um parâmetro comum que orienta planejamentos e práticas pedagógicas, promovendo igualdade de oportunidades e evitando lacunas no desenvolvimento infantil. Isso permite que os profissionais do Maternal criem atividades que respeitem o ritmo da criança, fortalecendo vínculos afetivos e promovendo descobertas de forma lúdica e segura.

A aplicação da BNCC no Maternal garante, portanto, uma educação mais consistente, inclusiva e alinhada com as necessidades de desenvolvimento da criança, respeitando suas etapas cognitivas, motoras e socioemocionais.

Campos de Experiência da BNCC aplicados ao Maternal

Na Educação Infantil, os cinco Campos de Experiência organizados pela BNCC, articulam o desenvolvimento integral da criança, contemplando aspectos físicos, cognitivos, sociais e emocionais. Esses campos guiam o planejamento docente e garantem que as experiências vividas pelas crianças no Maternal sejam significativas e coerentes com seu estágio de desenvolvimento.

1. O eu, o outro e o nós

Esse campo valoriza as interações e o reconhecimento do outro como parte da construção da identidade. No Maternal, as crianças começam a expressar sentimentos, a compreender regras simples e a desenvolver empatia. A BNCC (BRASIL, 2017) ressalta que essa convivência contribui para o fortalecimento dos vínculos afetivos e o respeito às diferenças.

2. Corpo, gestos e movimentos

Nessa faixa etária, o corpo é o principal meio de comunicação e descoberta. Atividades como danças, circuitos e jogos simbólicos favorecem o controle motor, a percepção corporal e a coordenação. Segundo Wallon (2007), o movimento é elemento essencial no desenvolvimento infantil, pois permite à criança expressar emoções e compreender o ambiente.

3. Traços, sons, cores e formas

Esse campo estimula a criatividade e a expressão artística. No Maternal, experiências com tintas, argila, instrumentos musicais e materiais diversos ampliam o repertório sensorial da criança, fortalecendo sua imaginação e percepção estética (FLEER, 2010).

4. Escuta, fala, pensamento e imaginação

Durante o Maternal, o desenvolvimento da linguagem é intenso. As interações, as histórias e as conversas cotidianas ampliam o vocabulário e a capacidade de comunicação. A BNCC destaca a importância de oferecer situações que envolvam narrativas, cantigas e dramatizações para desenvolver a escuta ativa e o pensamento simbólico.

5. Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações

Nesse campo, a criança começa a construir noções básicas de espaço, tempo e quantidade. Brincadeiras de empilhar, organizar objetos e explorar o ambiente ajudam a desenvolver o raciocínio lógico e a curiosidade científica.

Assim, os Campos de Experiência estruturam uma prática pedagógica que respeita o ritmo da criança, promove autonomia e possibilita o aprendizado por meio de experiências lúdicas e afetivas.

Desenvolvimento das crianças de 2 a 3 anos segundo a BNCC

O período de 2 a 3 anos é marcado por intensas transformações no desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social das crianças. Nessa fase, elas começam a expressar suas vontades, explorar o ambiente com mais autonomia e desenvolver a linguagem de forma acelerada. A BNCC (BRASIL, 2017) orienta que o trabalho pedagógico com o Maternal deve favorecer experiências que ampliem a curiosidade, a imaginação e a capacidade de convivência.

Do ponto de vista motor, as crianças já dominam a marcha e aprimoram habilidades como correr, subir, descer e manipular objetos. Atividades de coordenação ampla e fina, como empilhar blocos, encaixar peças e rasgar papéis, são fundamentais para o fortalecimento muscular e o desenvolvimento da coordenação visomotora (WALLON, 2007).

No aspecto cognitivo, o pensamento simbólico se consolida: a criança começa a representar situações reais por meio da brincadeira de faz de conta, característica essencial do estágio pré-operatório descrito por Piaget (1978). Essas experiências simbólicas possibilitam a internalização de regras, papéis sociais e a construção do raciocínio lógico inicial.

O desenvolvimento da linguagem é outro marco dessa etapa. A criança amplia seu vocabulário, formula frases curtas e passa a se comunicar com mais clareza. A BNCC destaca que o educador deve promover contextos ricos de oralidade, leitura de histórias, rodas de conversa e músicas, fortalecendo tanto a escuta quanto a expressão verbal.

No campo socioemocional, há uma busca crescente por autonomia e autoafirmação. As crianças aprendem a esperar, dividir brinquedos e lidar com pequenas frustrações. Vygotsky (1991) enfatiza que o desenvolvimento acontece nas interações sociais mediadas por adultos, o que reforça a importância da atuação intencional do educador.

Dessa forma, a BNCC propõe uma abordagem integrada, que reconhece a criança como protagonista do próprio aprendizado, considerando suas potencialidades e respeitando o ritmo individual de desenvolvimento. O educador torna-se mediador, planejando situações que desafiem a curiosidade e promovam aprendizagens significativas e afetivas.

Mudanças significativas com a implementação da BNCC no Maternal

A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trouxe mudanças significativas para a Educação Infantil, transformando a forma como os profissionais planejam e conduzem o trabalho pedagógico no Maternal. Antes, as práticas pedagógicas estavam centradas, muitas vezes, apenas no cuidado básico e na rotina diária. Com a BNCC, o foco passou a integrar cuidado, brincadeira e aprendizagem, respeitando o protagonismo da criança e seu direito de explorar o mundo de forma lúdica e segura (BRASIL, 2017).

Uma das mudanças mais importantes é a organização curricular por Campos de Experiência, que substitui antigos eixos ou conteúdos isolados. Essa estrutura permite que as atividades sejam planejadas de forma articulada, valorizando a interação, a exploração e o aprendizado ativo da criança. Segundo Vygotsky (1991), o desenvolvimento infantil ocorre principalmente por meio de interações sociais mediadas por adultos, o que reforça a importância de práticas intencionais e planejadas na Educação Infantil.

Outro avanço está na intencionalidade pedagógica. A BNCC orienta que as atividades devem ter objetivos claros, baseados na observação do desenvolvimento individual de cada criança. Isso transforma o papel do educador, que deixa de ser apenas executor de rotinas e passa a ser mediador de experiências significativas, promovendo aprendizagens cognitivas, motoras e socioemocionais (BRASIL, 2017).

A ênfase no desenvolvimento socioemocional também representa uma mudança relevante. A BNCC reconhece que o vínculo afetivo, a empatia, a cooperação e a autorregulação emocional são habilidades essenciais que devem ser estimuladas desde o Maternal. Essa abordagem amplia o conceito de aprendizagem, indo além da aquisição de conhecimentos, e valoriza a formação integral da criança.

Por fim, a BNCC fortalece a formação docente, incentivando reflexões sobre a prática pedagógica e propondo o planejamento de atividades alinhadas aos Campos de Experiência. Dessa forma, o Maternal deixa de ser apenas um espaço de cuidado e se torna um ambiente rico em descobertas, interações e desenvolvimento integral.

Desafios e perspectivas futuras

A implementação da BNCC no Maternal trouxe avanços significativos, mas também apresenta desafios para educadores e instituições. Um dos principais é a necessidade de formação contínua dos profissionais, para que compreendam plenamente os Campos de Experiência e consigam planejar atividades que respeitem o ritmo individual de cada criança (BRASIL, 2017).

Outro desafio está na infraestrutura das creches e pré-escolas, que muitas vezes não oferece espaços adequados para brincadeiras que promovam o desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional. A limitação de recursos materiais e de tempo de planejamento pode dificultar a aplicação das diretrizes da BNCC de forma integral.

Apesar dessas dificuldades, as perspectivas futuras são promissoras. A BNCC propõe uma Educação Infantil mais integrada, lúdica e centrada na criança, valorizando tanto o aprendizado quanto o cuidado. O investimento em formação docente, planejamento colaborativo e ambientes ricos em estímulos permitirá que o Maternal se torne um espaço de descoberta, interação e desenvolvimento integral.

Além disso, a avaliação constante das práticas pedagógicas e a adaptação às necessidades da comunidade escolar podem contribuir para a consolidação de uma educação de qualidade, alinhada aos direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças de 2 a 3 anos (VYGOTSKY, 1991; WALLON, 2007).

Conclusão

A BNCC representa um avanço significativo na Educação Infantil, trazendo uma abordagem estruturada, lúdica e centrada no desenvolvimento integral das crianças de 2 a 3 anos. Ao organizar as atividades pelos Campos de Experiência, a BNCC permite que educadores planejem práticas pedagógicas intencionais, promovendo aprendizado cognitivo, motor e socioemocional. Apesar dos desafios de formação docente e infraestrutura, a implementação da BNCC favorece um ambiente mais inclusivo e estimulante, no qual cada criança pode explorar, descobrir e construir conhecimento de forma segura e significativa. Assim, o Maternal se torna um espaço de desenvolvimento integral e protagonismo infantil.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 2017.

FLEER, Marilyn. Early learning and development: cultural-historical concepts in play. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.

PIAGET, J. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70, 2007.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *