Atividades de matemática na Pré-escola: ideias práticas e divertidas

A matemática faz parte do cotidiano das crianças desde muito cedo — nas brincadeiras, nas histórias, na organização dos objetos, na contagem espontânea, nas comparações que fazem e até nas pequenas decisões que tomam no dia a dia. Por isso, na Pré-escola, o objetivo não é ensinar conteúdos formais como operações ou cálculos estruturados, mas proporcionar experiências que permitam à criança explorar quantidades, formas, tamanhos, medidas, padrões e relações de maneira significativa e prazerosa.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça essa perspectiva ao afirmar que, na Educação Infantil, as crianças constroem conhecimentos matemáticos ao “observar, manusear objetos e explorar relações entre eles” (BRASIL, 2018). Ou seja, a matemática não é vista como um conjunto de exercícios, mas como uma linguagem que ajuda a organizar o pensamento e compreender o mundo.

Estudos como os de Constance Kamii (1986) destacam que o raciocínio lógico-matemático se desenvolve a partir da ação: a criança aprende quando manipula, experimenta e interage com objetos concretos. Para a autora, “a criança constrói o conhecimento lógico-matemático a partir de suas ações sobre os objetos”, o que reforça a importância de atividades que promovam descoberta, curiosidade e autonomia.

Assim, o propósito deste artigo é apresentar ideias práticas e divertidas de atividades matemáticas para a Pré-escola, alinhadas à BNCC e fundamentadas em estudos sólidos da Educação Infantil. As sugestões foram pensadas para facilitar o planejamento pedagógico, promover experiências significativas e transformar a matemática em uma aventura diária cheia de descobertas.

Uma foto de plano médio mostrando um grupo de crianças reunidas em volta de uma mesa grande e iluminada em uma sala de aula colorida. Um educador sorri enquanto orienta as crianças, que manipulam com entusiasmo blocos geométricos coloridos, tampinhas e elementos naturais como folhas e pedras. A cena transmite uma atmosfera de concentração, descoberta e interação social, com foco no protagonismo infantil e no aprendizado lúdico da matemática.
Imagem ilustrativa: Sob a mediação de um educador, crianças exploram materiais naturais e formas geométricas, desenvolvendo o raciocínio lógico por meio da manipulação e da curiosidade

A matemática na Pré-escola segundo a BNCC

A BNCC insere a matemática da Educação Infantil dentro do Campo de Experiência “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”, reconhecendo que os conhecimentos matemáticos são construídos pelas crianças a partir da exploração ativa do mundo ao seu redor. Assim, nessa faixa etária, trabalhar matemática significa proporcionar vivências reais de observação, manipulação, comparação e organização, sempre por meio do brincar e das interações.

O documento reforça que as aprendizagens matemáticas devem surgir de situações significativas, conectadas ao cotidiano das crianças. De acordo com a BNCC, as experiências matemáticas devem ser integradas às situações da vida diária, envolvendo contagem, comparação, organização e observação de objetos (BRASIL, 2018). Isso inclui desde contar os colegas na roda, comparar tamanhos de brinquedos, explorar formas no ambiente até organizar materiais em categorias.

Entre as habilidades essenciais esperadas para crianças de 4 a 5 anos, destacam-se:

  • Contar oralmente elementos do ambiente;
  • Comparar quantidades (maior, menor, igual);
  • Reconhecer e nomear algumas formas geométricas;
  • Identificar padrões e sequências simples;
  • Classificar objetos segundo características observáveis;
  • Antecipar resultados em situações-problema simples;
  • Observar transformações naturais e mudanças no ambiente.

Segundo Oliveira (2010), a matemática na Educação Infantil precisa ser vivida em contextos reais, onde a criança possa experimentar e levantar hipóteses. A autora destaca que o professor deve criar ambientes que estimulem a investigação, pois “é na experiência, na manipulação e na interação que a criança constrói seu pensamento”.

Assim, a BNCC nos lembra que matemática na Pré-escola não é antecipar conteúdos, e sim garantir experiências ricas que desenvolvam raciocínio lógico, autonomia, criatividade e capacidade de resolver problemas — competências fundamentais para toda a vida escolar.

A importância do lúdico no desenvolvimento matemático

O desenvolvimento do pensamento matemático na Pré-escola depende diretamente da forma como as crianças exploram o mundo. É por isso que o lúdico — jogos, brincadeiras, desafios, exploração e imaginação — é considerado a via mais eficaz para trabalhar conceitos matemáticos na Educação Infantil.

Segundo a BNCC, as aprendizagens matemáticas devem se apoiar em situações que envolvam manipulação de objetos, exploração do espaço, observação de fenômenos e resolução de pequenos problemas, sempre de maneira significativa e prazerosa (BRASIL, 2018). Ao brincar, a criança experimenta, erra, corrige, inventa estratégias e produz conhecimento.

A pesquisadora Constance Kamii (1986), referência mundial no estudo do raciocínio lógico-matemático infantil, afirma que “a criança constrói o conhecimento lógico-matemático a partir de suas ações sobre os objetos e das relações que estabelece entre eles”. Isso significa que atividades como comparar tamanhos, classificar objetos, ordenar elementos e organizar coleções estão diretamente ligadas ao desenvolvimento de noções essenciais, como sequência, quantidade, proporção e correspondência.

Além disso, o lúdico promove autonomia e pensamento crítico. Jogos de regras, por exemplo, incentivam a criança a prever jogadas, elaborar estratégias e tomar decisões. Brincadeiras com blocos, tampinhas, água, coleções de folhas, areia ou objetos naturais estimulam a criatividade e a investigação matemática.

A teoria histórico-cultural também reforça esse papel do brincar. Para Vygotsky (1998), o jogo simbólico possibilita que a criança atue em um nível superior ao seu comportamento cotidiano. No faz de conta, ela planeja, representa, antecipa resultados e organiza o pensamento — habilidades fundamentais para compreender conceitos matemáticos mais complexos no futuro.

Assim, o lúdico não é um complemento, mas a metodologia central para o trabalho matemático na Pré-escola, pois integra emoção, ação, imaginação, linguagem e raciocínio em um processo natural e prazeroso de aprendizagem.

Atividades práticas: contagem e quantidades

A contagem e a construção da noção de quantidade são pilares do pensamento matemático na Pré-escola. De acordo com a BNCC, crianças de 4 a 5 anos devem explorar situações em que possam contar, comparar, relacionar e organizar quantidades de forma concreta e significativa (BRASIL, 2018).

Segundo Artur Gomes de Morais (2018), experiências que envolvem contagem oral, correspondência um a um e organização de coleções ajudam a criança a desenvolver estratégias próprias para resolver problemas. O autor destaca que a matemática na infância precisa estar vinculada a situações reais e à resolução de desafios cotidianos. A seguir, algumas atividades práticas e divertidas alinhadas à BNCC:

Mercadinho da Matemática

Monte um espaço com embalagens vazias, etiquetas e dinheiro de brinquedo.
A criança pode:

  • comprar e vender;
  • contar objetos;
  • comparar preços e quantidades;
  • montar listas.

Habilidades trabalhadas: contagem, correspondência, comparação.

Caça aos Números no Pátio

Espalhe cartões numerados pelo jardim ou pátio.

Peça às crianças que procurem:

  • números específicos;
  • quantidades solicitadas (ex.: “ache três folhas”, “ache cinco pedrinhas”).
     Habilidades: localização, quantificação, associação número-quantidade.

Jogo das Tampinhas

Utilize tampinhas coloridas para propor desafios como:

  • organizar coleções;
  • formar grupos com quantidades solicitadas;
  • comparar “quem tem mais, quem tem menos”;
  • ordenar do menor para o maior.

Habilidades: classificação, seriação, comparação.

Histórias com números

Use livros como ponto de partida (ex.: “Os Três Porquinhos”).
Depois da leitura, proponha:

  • contagem de personagens e objetos;
  • criação de novas versões com outras quantidades;
  • jogos de memória com números da história.
     Habilidades: contagem, raciocínio e oralidade matemática.

Essas atividades transformam a matemática em uma experiência prazerosa. Como afirma Kamii (1986), “crianças constroem conceitos matemáticos quando agem, manipulam e refletem sobre suas ações”.

Atividades práticas: formas geométricas e espaço

A exploração das formas geométricas e das relações espaciais é fundamental na Pré-escola, pois ajuda as crianças a compreenderem como os objetos se organizam, se movem e se relacionam no espaço. A BNCC indica que, entre 4 e 5 anos, as crianças devem ter oportunidades de reconhecer formas, identificar características, comparar tamanhos e interpretar posições no ambiente (BRASIL, 2018).

Segundo Gallahue, Ozmun e Goodway (2013), o desenvolvimento da percepção espacial ocorre quando a criança movimenta o corpo, manipula objetos, constrói, desmonta, explora trajetos e organiza elementos no espaço. Essas experiências fortalecem tanto a cognição matemática quanto habilidades motoras e de resolução de problemas. A seguir, atividades práticas e divertidas alinhadas a esse desenvolvimento:

Caça às formas na sala

Espalhe cartões com figuras geométricas (círculo, quadrado, triângulo, retângulo) pela sala.

As crianças devem encontrar objetos reais que tenham o mesmo formato.
Exemplo: janelas retangulares, pneus circulares, tampas redondas.

Habilidades: reconhecimento de formas, observação e classificação.

Construções com blocos

Utilize blocos de montar ou peças de madeira.

Proponha desafios como:

  • construir torres mais altas;
  • formar casas com shapes específicos;
  • reproduzir modelos simples desenhados pelo professor.
     Habilidades: composição e decomposição de formas, equilíbrio, planejamento espacial.

Desenho no chão com giz

Faça figuras grandes no chão usando giz colorido.

Convide as crianças a:

  • percorrer os contornos;
  • criar figuras novas a partir das anteriores;
  • andar sobre linhas retas e curvas.

Habilidades: coordenação motora, percepção espacial, formas geométricas.

Mapas e caminhos pelo pátio

  • monte trajetos com fitas adesivas: zigue-zagues, curvas, linhas retas;
  • as crianças podem seguir os caminhos andando, correndo ou levando carrinhos.

Habilidades: orientação espacial (dentro/fora, perto/longe, direita/esquerda).

Essas vivências tornam a matemática concreta e envolvente. Como afirmam Gallahue, Ozmun e Goodway (2013), o movimento e a manipulação são essenciais para a construção da percepção espacial, um elemento-chave para aprendizagens futuras.

Atividades práticas: padrões, classificações e sequências

Trabalhar padrões, classificações e sequências na Pré-escola é essencial para o desenvolvimento do raciocínio lógico. Segundo a BNCC, crianças de 4 a 5 anos devem ser incentivadas a comparar, ordenar, categorizar, criar séries e identificar regularidades (BRASIL, 2018). Essas habilidades ajudam a criança a organizar o pensamento e compreender relações entre objetos e situações.

De acordo com Kamii (1986), a classificação é uma das bases da lógica infantil, pois envolve observar características, estabelecer critérios e tomar decisões. Já a criação de padrões contribui para o desenvolvimento da previsão, da organização mental e da resolução de problemas. A seguir, algumas propostas práticas e divertidas:

Sequências com tampinhas coloridas

Distribua tampinhas de cores variadas e peça às crianças que criem sequências como:

  • vermelho – azul – vermelho – azul;
  • amarelo – verde – verde – amarelo.

Depois, incentive-as a inventar seus próprios padrões.

Habilidades: identificação de regularidades, previsão e criação de séries.

Classificação de objetos da natureza

Ao explorar o pátio, as crianças podem coletar folhas, pedras, flores e gravetos.
Em seguida, organizam os elementos por:

  • cor,
  • tamanho,
  • textura,
  • formato.

Habilidades: categorização, comparação e análise.

Estampagem com carimbos ou esponjas

Ofereça carimbos de formas ou esponjas recortadas.

Peça que criem padrões em folhas grandes ou painéis coletivos.
Habilidades: repetição, ritmo e criação estética.

Fios de contas com padrões

Ofereça canudos cortados, miçangas grandes ou macarrão tingidos.
As crianças devem montar colares seguindo uma sequência proposta.
Habilidades: seriação, coordenação fina e raciocínio lógico.

Essas práticas transformam a matemática em uma experiência visual, tátil e criativa. Como reforça a BNCC, identificar padrões e classificar objetos ajuda as crianças a compreender lógica, relações e organização do mundo.

Atividades ao ar livre e matemática na rotina

A matemática está presente em todos os espaços da vida da criança — no pátio, na natureza, nos objetos, nos tempos da rotina e até nas brincadeiras mais simples. Por isso, uma excelente forma de trabalhar noções matemáticas na Pré-escola é levar a aprendizagem para fora da sala, permitindo que as crianças observem, investiguem, comparem e experimentem livremente.

A BNCC reforça que as experiências matemáticas na Educação Infantil devem ser integradas a situações reais, permitindo que a criança explore quantidades, medidas, tempos e relações espaciais de forma significativa (BRASIL, 2018). Ambientes externos oferecem infinitas oportunidades para isso. A seguir, algumas propostas práticas:

Brincadeiras com areia e água

As crianças podem encher, esvaziar, comparar recipientes e observar volumes.

  • O que cabe mais?
  • Como fazer para encher mais rápido?

Habilidades: capacidade, comparação e estimativa.

Medindo passos pelo pátio

Proponha desafios:

  • “Quantos passos até o portão?”
  • “Quem dá passos mais longos?”

Habilidades: medida não convencional, distância, contagem.

Observação de sombras

Peça às crianças que comparem sombras em diferentes horários.

  • A sombra cresce?
  • Para onde ela aponta?

Habilidades: tempo, fenômenos naturais e observação científica.

Matemática na fila e na rotina diária

Ao organizar a turma:

  • contar quem chegou;
  • comparar quem tem mais ou menos fichas;
  • usar calendários e rotinas visuais.

Habilidades: contagem, ordem, temporalidade.

Cozinhar na escola

Preparo de receitas simples com medidas (colheres, xícaras).
Habilidades: quantidade, proporção, sequência lógica.

Segundo Zilma de Oliveira (2010), aprender em situações reais favorece a construção de sentido e amplia a motivação infantil, pois conecta a lógica matemática ao cotidiano da criança.

Experiências ao ar livre tornam a matemática viva, concreta e profundamente prazerosa.

Como avaliar a aprendizagem matemática na Pré-escola

A avaliação na Educação Infantil não tem caráter classificatório nem busca medir resultados prontos, mas acompanhar o processo, compreender estratégias, registrar descobertas e analisar o percurso individual de cada criança. Na matemática, isso é ainda mais importante, pois o desenvolvimento do raciocínio lógico ocorre de forma progressiva, espontânea e muitas vezes não verbal.

Segundo a BNCC, a avaliação deve ser contínua, qualitativa, processual e baseada na observação das experiências vividas pela criança (BRASIL, 2018). Isso inclui observar como ela compara, classifica, ordena, conta, explica e cria estratégias ao resolver desafios matemáticos.

O autor Miguel Zabalza (2006) afirma que “documentar a aprendizagem é tornar visível o percurso da criança”, reforçando que registros sistemáticos são fundamentais para acompanhar o desenvolvimento. A avaliação deve, portanto, focar em:

✔️ Como a criança pensa

Quais estratégias usa para contar, classificar, comparar e resolver problemas?

✔️ Como interage com materiais matemáticos

Blocos, tampinhas, objetos naturais, recipientes, instrumentos, jogos.

✔️ Como comunica suas descobertas

Conversas espontâneas, justificativas, explicações e gestos.

✔️ Como participa de jogos e atividades coletivas

Regras, turnos, cooperação, estratégias.

✔️ Registros recomendados

  • Portfólios individuais;
  • Fotografias das produções;
  • Relatórios descritivos;
  • Anotações do professor;
  • Vídeos curtos de interações.

Esse tipo de avaliação respeita a infância, valoriza processos e oferece ao professor informações reais para ajustar as propostas e apoiar cada criança em seu ritmo, garantindo aprendizagens matemáticas mais sólidas e significativas.

Conclusão 

A matemática na Pré-escola não deve ser entendida como ensino formal de operações ou conteúdos estruturados. Na perspectiva da BNCC, ela é um modo de pensar, uma linguagem que ajuda a criança a organizar o mundo, resolver problemas, construir relações e fazer descobertas significativas. Ao proporcionar experiências lúdicas, investigativas e contextualizadas, o professor possibilita que a criança desenvolva raciocínio lógico, autonomia, criatividade, capacidade de comparar, medir, contar, ordenar e prever resultados.

As atividades práticas apresentadas — contagem, exploração do espaço, formas geométricas, padrões, sequências, brincadeiras ao ar livre e matemática na rotina — mostram que o conhecimento matemático surge de ações concretas, vivências reais e interações ricas. Esse processo está em total consonância com o que afirmam Kamii (1986), Vygotsky (1998) e Oliveira (2010): a criança constrói conhecimento quando age, manipula, observa, experimenta, imagina e interage.

Para que isso aconteça, é essencial que as escolas planejem intencionalmente, ofereçam ambientes organizados e estimulantes, e adotem uma avaliação sensível, contínua e respeitosa, como orienta Zabalza (2006). Assim, a matemática deixa de ser vista como algo abstrato e distante e passa a ser parte do cotidiano, da brincadeira e da curiosidade infantil.

Referências

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

GALLAHUE, David L.; OZMUN, John C.; GOODWAY, Jacqueline D. Compreendendo o Desenvolvimento Motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

KAMII, Constance. A criança e o número. Campinas: Papirus, 1986.

OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2010.

VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ZABALZA, Miguel. Qualidade na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2006.

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