Brincar é a essência da infância. É por meio das brincadeiras que as crianças exploram o mundo, formulam hipóteses, testam possibilidades, expressam emoções e constroem conhecimento. Na Pré-escola, a ludicidade não é apenas um recurso pedagógico complementar — ela é o caminho central pelo qual se dá grande parte do desenvolvimento cognitivo, emocional, social e motor.
A BNCC reconhece essa importância ao afirmar que as brincadeiras e interações são eixos estruturantes da Educação Infantil. Segundo o documento: “As brincadeiras e interações são eixos estruturantes das práticas pedagógicas da Educação Infantil.” (BRASIL, 2018)
Isso significa que o brincar não é tempo “livre” ou sem propósito. Ele é uma experiência essencial, que amplia o pensamento, fortalece a criatividade e promove aprendizagens profundas, muitas vezes impossíveis de serem obtidas por atividades formais ou instruções diretas.
Especialistas reforçam que a ludicidade é um caminho privilegiado para o desenvolvimento cognitivo. Para Vygotsky (1998), o brinquedo permite que a criança avance para além do seu comportamento habitual: “No brinquedo, a criança age além de seu comportamento habitual, como se fosse maior do que é.”
Ou seja, o brincar cria uma zona de desenvolvimento ampliada, onde a criança exercita funções mentais superiores, como atenção, memória, planejamento e simbolização. Esse avanço acontece porque a ludicidade envolve imaginação, regras, linguagem, escolhas, resolução de conflitos e elaboração simbólica — todos elementos que impulsionam o desenvolvimento cognitivo.
A ludicidade, portanto, é a ponte entre infância e aprendizagem, entre afetividade e pensamento, entre curiosidade e conhecimento.
Neste artigo, exploraremos como a ludicidade contribui para o desenvolvimento cognitivo na Pré-escola, o que dizem os especialistas, como a BNCC fundamenta essa prática, quais brincadeiras favorecem esse processo e como professores podem mediar situações lúdicas com intencionalidade pedagógica.

O que é ludicidade na Educação Infantil?
A ludicidade é muito mais do que brincar — ela é uma atitude, uma forma de viver experiências com curiosidade, imaginação, prazer e envolvimento. Na Educação Infantil, a ludicidade se manifesta por meio das brincadeiras livres, dos jogos, do faz de conta, das explorações sensoriais, das produções artísticas, das descobertas espontâneas e de todas as situações que permitem que a criança experimente o mundo com corpo, emoção e pensamento.
Brincar é a linguagem natural das crianças. Elas compreendem o mundo brincando, organizam experiências brincando, elaboram emoções brincando e constroem raciocínios complexos enquanto manipulam objetos, criam enredos e resolvem desafios imaginários. Por isso, a ludicidade não é um “extra” da rotina — é a base de todo o processo de aprendizagem na Pré-escola.
O brincar pode assumir diferentes formas
- Brincar livre: quando a criança escolhe o que fazer, como fazer e com quem fazer.
- Brincar orientado: quando o professor propõe materiais, desafios ou ambientes com intencionalidade pedagógica.
- Brincar simbólico: quando a criança representa papéis, cria histórias e usa objetos como se fossem outros.
- Brincar investigativo: quando ela experimenta hipóteses, testa materiais e pesquisa o ambiente.
Ludicidade e desenvolvimento cognitivo: o que dizem os especialistas?
O desenvolvimento cognitivo na Pré-escola está intimamente ligado às experiências lúdicas. A brincadeira é um dos principais motores do pensamento infantil, pois mobiliza funções mentais essenciais: atenção, memória, raciocínio, imaginação, planejamento, tomada de decisão e resolução de problemas. Diversos autores clássicos e contemporâneos da Educação Infantil reforçam essa relação.
Jean Piaget destacou que, no período pré-operatório, o brincar simbólico é fundamental para a construção do pensamento representacional. No jogo de faz de conta, a criança cria significados, relaciona ideias, experimenta papéis sociais e organiza sequências narrativas. Essas ações preparam o caminho para processos cognitivos mais complexos. Para Piaget (1978), o símbolo é a base da construção do conhecimento.
Vygotsky, por sua vez, enfatiza o papel social e imaginativo do brincar. Ele afirma que: “O brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança.” (VYGOTSKY, 1998)
Isso significa que, ao brincar, ela consegue realizar ações e pensamentos que ainda não domina completamente na vida real — mas que se tornam possíveis dentro do enredo lúdico. Assim, a brincadeira amplia suas capacidades cognitivas.
Zilma Ramos de Oliveira (2010) reforça que o brincar é uma experiência de construção de sentido. Através do jogo, a criança interpreta o mundo, organiza percepções, formula hipóteses e busca explicações. Nesse processo, sua cognição se expande de forma profunda e significativa.
Entre as funções cognitivas estimuladas pela ludicidade, destacam-se
- atenção compartilhada e focada;
- memória operacional;
- planejamento de ações;
- resolução de conflitos e problemas;
- linguagem e pensamento simbólico;
- criatividade e flexibilidade cognitiva.
Assim, brincar não é apenas diversão — é pensamento em ação, é cognição viva, concreta e expressiva.
Como a BNCC integra ludicidade e cognição?
A BNCC reconhece explicitamente que o brincar é o eixo central da Educação Infantil. O documento afirma que: “As brincadeiras e interações são eixos estruturantes das práticas pedagógicas da Educação Infantil.” (BRASIL, 2018)
Ao assumir essa posição, a BNCC estabelece que a aprendizagem na Pré-escola não deve ocorrer por meio de instruções rígidas, atividades repetitivas ou rotinas mecânicas, mas sim por meio da ludicidade — experiências ativas, criativas e significativas.
A BNCC integra o brincar ao desenvolvimento cognitivo de diferentes maneiras. Nos Campos de Experiência, encontramos orientações claras:
Traços, sons, cores e formas
Incentiva a exploração de materiais, cores, formas, texturas e sons. Essas ações estimulam:
- raciocínio lógico;
- percepção;
- comparação;
- classificação;
- criatividade;
- planejamento.
Escuta, fala, pensamento e imaginação
O brincar simbólico, as narrativas e os jogos verbais ampliam:
- linguagem oral;
- pensamento representacional;
- sequenciação;
- construção de sentido.
Corpo, gestos e movimentos
Brincadeiras corporais favorecem:
- atenção;
- memória motora;
- coordenação;
- tomada de decisão.
O eu, o outro e o nós
Jogos de regras e brincadeiras coletivas estimulam:
- autocontrole;
- negociação;
- resolução de conflitos;
- pensamento colaborativo.
Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações
Exploração de natureza, objetos e fenômenos desenvolve:
- relação causa e efeito;
- observação;
- comparação;
- formulação de hipóteses.
Assim, a BNCC integra ludicidade e cognição em todas as áreas, reforçando a ideia de que brincar é a forma mais potente de aprender na infância.
Exemplos de brincadeiras que desenvolvem cognição
A ludicidade favorece o desenvolvimento cognitivo porque mobiliza funções mentais essenciais: atenção, memória, planejamento, criatividade, hipótese e resolução de problemas. Na Pré-escola, diferentes tipos de brincadeiras fortalecem essas habilidades de maneiras complementares. A seguir, alguns exemplos que podem ser incorporados à rotina pedagógica.
Jogos simbólicos (faz de conta)
São brincadeiras em que as crianças assumem papéis, criam histórias e organizam enredos. Ex.: casinha, loja, médico, escola, restaurante, bombeiro.
Estimula:
- pensamento simbólico;
- narrativa;
- linguagem;
- planejamento;
- tomada de decisões.
Piaget (1978) destaca que o símbolo é fundamental para a construção do pensamento.
Jogos de regras simples
Jogo da memória, dominó de figuras, trilhas simples, pescaria, bingo das letras e números.
Estimula:
- atenção e foco;
- memória de trabalho;
- raciocínio lógico;
- controle inibitório;
- resolução de conflitos.
Vygotsky (1998) destaca que regras ampliam a Zona de Desenvolvimento Proximal, pois exigem autocontrole.
Atividades de investigação
Experimentos com água, areia, luz e sombra; classificação de folhas; exploração de objetos diferentes.
Estimula:
- hipóteses;
- causa e efeito;
- comparação;
- observação;
- raciocínio científico inicial.
Brincadeiras de construção
Blocos, legos, caixas, sucatas estruturáveis.
Estimula:
- planejamento;
- raciocínio espacial;
- resolução de problemas;
- criatividade.
Oliveira (2010) reforça que o brincar construtivo desenvolve autonomia cognitiva.
Brincadeiras musicais
Sequências rítmicas, adivinhações sonoras, jogos de repetição.
Estimula:
- memória auditiva;
- percepção;
- sequenciação;
- concentração.
Explorações sensoriais
Massinha, espuma, água, farinha, elementos naturais.
Estimula:
- categorização;
- percepção fina;
- tomada de decisão;
- imaginação.
Essas brincadeiras, quando intencionalmente organizadas, formam um conjunto poderoso de estratégias cognitivas para a Pré-escola — sempre de forma leve, prazerosa e significativa.
O papel do professor como mediador da ludicidade
O brincar é natural da criança, mas transformar a ludicidade em experiência pedagógica significativa depende diretamente da mediação do professor. O adulto não deve controlar a brincadeira, mas criar condições para que ela aconteça com profundidade, sentido e potência cognitiva.
Segundo Oliveira (2010), o professor é o responsável por “organizar situações que transformam o brincar em oportunidade de construção de sentido”. Isso significa que sua ação vai muito além de supervisionar: ele observa, escuta, provoca, amplia e valoriza as experiências lúdicas, como nos exemplos a seguir.
Organizar o ambiente
O professor prepara espaços acessíveis, com materiais variados, esteticamente agradáveis e que convidem à exploração. Ambientes bem planejados favorecem escolhas autônomas e estimulam a curiosidade.
Oferecer materiais que desafiem
Brinquedos estruturados e não estruturados, objetos naturais, caixas, tecidos, blocos, instrumentos musicais, elementos sensoriais. A diversidade amplia possibilidades cognitivas.
Observar para intervir no momento certo
A intervenção não deve interromper a brincadeira, mas ampliá-la. Exemplos:
- propor uma nova pergunta;
- introduzir um novo elemento;
- ajudar a organizar ideias;
- contribuir para que as crianças resolvam conflitos.
Essas intervenções intencionais enriquecem o pensamento.
Valorizar o brincar livre
A autonomia é essencial para o desenvolvimento cognitivo. Ao escolher como brincar, a criança planeja, decide, organiza e regula seu comportamento.
Inserir desafios cognitivos de forma sutil
O professor pode incluir desafios sem transformar o brincar em atividade formal, por exemplo:
- “Quantos blocos você usou para construir isso?”
- “O que aconteceria se mudássemos essa parte da história?”
A mediação sensível transforma a ludicidade em conhecimento vivo.
O ambiente lúdico: como organizar espaços para pensar e brincar
O ambiente é um dos principais aliados do desenvolvimento cognitivo na Pré-escola. Ele comunica, convida, inspira e orienta a ação das crianças. Quando organizado de forma intencional, estética e acessível, torna-se um “terceiro educador”, expressão amplamente usada na Educação Infantil. Nesses espaços, o brincar e o pensar acontecem naturalmente.
Segundo Horn (2017), a organização do ambiente deve promover autonomia, exploração e interação, garantindo que as crianças encontrem sentido em suas escolhas e possibilidades de criação.
Cantos diversificados
Cantos permitem que as crianças façam escolhas e aprofundem experiências. Alguns exemplos:
- canto da leitura;
- canto da casinha / faz de conta;
- canto de construções;
- canto artístico;
- canto sensorial;
- canto científico (lupas, plantas, coleções).
Cada canto favorece diferentes tipos de raciocínio, imaginação e investigação.
Materiais acessíveis e bem organizados
Materiais devem estar ao alcance das crianças para promover autonomia:
- blocos;
- tecidos;
- instrumentos musicais;
- elementos naturais;
- sucatas;
- pincéis, papéis e tintas.
A visibilidade e a disponibilidade estimulam planejamento e escolhas.
Espaços internos e externos integrados
O ambiente externo é tão importante quanto o interno. Natureza, areia, água, pedras, vento e luz oferecem estímulos cognitivos ricos, despertando observação, comparação e hipóteses.
Estética que acolhe e inspira
Cores suaves, iluminação natural, painéis com produções das crianças e organização clara do espaço tornam o ambiente um convite ao brincar e pensar.
Ambientes mutáveis
O espaço precisa ser flexível. Mudar cantos, reorganizar materiais e incluir novidades estimula raciocínio e criatividade.
Projetos lúdicos que desenvolvem cognição
Projetos lúdicos são estratégias potentes para integrar brincadeira, investigação e aprendizagem. Eles permitem que as crianças vivenciem situações de exploração prolongada, criem hipóteses, resolvam problemas, planejem ações e desenvolvam múltiplas funções cognitivas de forma prazerosa. Os projetos abaixo são amplamente utilizados na Educação Infantil e podem ser facilmente adaptados.
Projeto “Pequenos Cientistas”
As crianças investigam fenômenos naturais, experimentam materiais e testam hipóteses.
Exemplos de atividades:
- misturas (água e farinha);
- sombras e luz;
- texturas;
- sementes e plantas.
Desenvolve: observação, raciocínio científico, comparação, relações de causa e efeito.
Projeto “Mundo do Faz de Conta”
Envolve cenários, figurinos, objetos simbólicos e histórias criadas pelas crianças.
Exemplos: famílias, restaurante, bombeiros, castelo, consultório, loja.
Desenvolve: narrativa, imaginação, linguagem, planejamento e solução de conflitos.
Projeto “Detetives da Natureza”
Exploração de ambientes internos e externos para observar detalhes do mundo. Atividades:
- coleta de folhas;
- observação com lupas;
- classificação de objetos;
- registro em fotos e desenhos.
Desenvolve: comparação, classificação, atenção aos detalhes, memória.
Projeto “Música e Movimento”
Jogos rítmicos, criação de sons, exploração de instrumentos.
Desenvolve: sequenciação, percepção, memória auditiva, coordenação motora.
Projeto “Desafios de Engenharia”
Construções com blocos, caixas, sucatas, tubos, rolos. Desafios:
- construir pontes;
- criar caminhos;
- montar casas estáveis;
- explorar equilíbrio.
Desenvolve: planejamento, raciocínio espacial, resolução de problemas, criatividade.
Esses projetos fortalecem cognição, autonomia e expressão — sempre de modo lúdico e integrado, como recomendam Piaget (1978) e Vygotsky (1998).
Considerações finais
A ludicidade não é apenas uma estratégia pedagógica: é a linguagem natural da infância e o meio pelo qual as crianças constroem conhecimento, elaboram emoções e se relacionam com o mundo. Ela favorece o desenvolvimento cognitivo porque mobiliza funções mentais superiores — memória, atenção, raciocínio, imaginação, planejamento e resolução de problemas — de forma integrada, significativa e prazerosa.
A BNCC reforça que as brincadeiras e interações devem ser os eixos estruturantes da Educação Infantil, reconhecendo o brincar como caminho legítimo para aprender e se desenvolver. Quando a escola respeita essa orientação e valoriza práticas lúdicas, oferece às crianças experiências ricas que ampliam o pensamento e fortalecem competências fundamentais para toda a vida.
Os autores clássicos e contemporâneos que estudam o desenvolvimento infantil — como Piaget, Vygotsky, Oliveira e Kishimoto — convergem em um ponto: a ludicidade é indispensável. Brincar não é perder tempo, nem um intervalo entre atividades “sérias”. Pelo contrário: o brincar é a própria atividade séria da infância, um processo profundo de aprendizagem.
Assim, o papel da Pré-escola é garantir tempo, espaço, materiais e mediação sensível para que a ludicidade floresça. Ambientes organizados, projetos lúdicos bem planejados e um professor atento e acolhedor possibilitam que as crianças avancem cognitivamente enquanto vivem a infância em sua essência.
Referências
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
HORN, Maria da Graça Souza. Brincar e interagir nos espaços da escola infantil. Porto Alegre: Penso, 2017.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias. São Paulo: Cortez, 2008.
OLIVEIRA, Zilma Ramos de Moraes. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2010.
PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: LTC, 1978.
VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
