O desenvolvimento da coordenação motora na primeira infância é essencial para a aquisição de habilidades físicas, cognitivas e sociais. No Maternal, período que compreende crianças entre 1 e 3 anos, as brincadeiras funcionam como o eixo central para estimular tanto a coordenação motora fina quanto a grossa. De acordo com a perspectiva cultural-histórica de Fleer (2010), a manipulação de objetos e a exploração do espaço não são apenas exercícios físicos, mas processos de aprendizagem onde a criança constrói conceitos sobre o mundo.
Nesse contexto, a BNCC (BRASIL 2018) reforça que atividades como o manuseio de diferentes materiais, a pintura e os jogos de percurso são direitos de aprendizagem que promovem o fortalecimento muscular, o equilíbrio e a percepção espacial, sendo fundamentais para o desenvolvimento da autonomia e da autorregulação.
Além disso, a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018) destaca que a educação infantil deve promover experiências que integrem movimento, linguagem e exploração do ambiente, respeitando o ritmo e as particularidades de cada criança. Brincadeiras estruturadas ou espontâneas permitem que os educadores observem os avanços individuais e planejem intervenções pedagógicas adequadas, potencializando o desenvolvimento integral.
Este artigo tem como objetivo apresentar brincadeiras simples para o Maternal que favorecem a coordenação motora, com orientações práticas para educadores e cuidadores, alinhadas a referências científicas e documentos oficiais, oferecendo estratégias lúdicas que contribuem para o crescimento saudável das crianças.

O que é coordenação motora e sua importância no Maternal
A coordenação motora refere-se à capacidade de executar movimentos com precisão, integração e controle, envolvendo a harmonia entre músculos, articulações e o sistema nervoso. No contexto do Maternal, a BNCC (BRASIL, 2018) organiza esse desenvolvimento em torno do campo de experiências “Corpo, Gestos e Movimentos”, subdividindo-o em coordenação motora grossa e fina. A coordenação motora grossa envolve o uso de grandes grupos musculares para movimentos amplos, como correr, pular e equilibrar-se. Já a coordenação motora fina abrange o controle de movimentos pequenos e precisos, essenciais para manipular objetos, desenhar e explorar texturas. Segundo Fleer (2010), essa evolução motora é a base para a construção do pensamento simbólico e da autonomia da criança.
No Maternal, fase que abrange crianças de 1 a 3 anos, o desenvolvimento motor é um componente central do crescimento integral. Nessa faixa etária, os pequenos aprimoram habilidades essenciais como equilíbrio, força muscular, percepção espacial, lateralidade e controle postural. Segundo a BNCC (BRASIL 2018), essas competências são exploradas através do convívio e da exploração de diferentes gestos e movimentos, sendo fundamentais para a construção da autonomia da criança. Complementarmente, Fleer (2010) destaca que o domínio do corpo e do espaço é o que permite à criança interagir socialmente e desenvolver processos cognitivos e de linguagem mais complexos, pois o movimento é a primeira forma de expressão e descoberta no mundo.
A Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018) reforça que a educação infantil deve proporcionar experiências que favoreçam o movimento e a exploração do corpo e do ambiente como eixos estruturantes do aprendizado. Brincadeiras lúdicas que estimulam a coordenação motora permitem que as crianças interajam de forma prazerosa com o mundo, desenvolvendo habilidades físicas e cognitivas simultaneamente, processo que Fleer (2010) identifica como a base da formação de conceitos na infância. Além disso, atividades motoras bem planejadas e integradas à rotina, conforme propõem Rodrigues e Almeida (2015), ajudam a prevenir atrasos no desenvolvimento e promovem hábitos saudáveis de vida, estabelecendo uma base sólida para a autonomia e o bem-estar dos pequenos.
Segundo especialistas, brincar é o principal mecanismo de aprendizagem na infância. Por meio de jogos e atividades físicas, a criança experimenta limites, descobre novas possibilidades de movimento e desenvolve competências essenciais para a vida diária. Portanto, o Maternal deve ser um espaço que combina cuidado, segurança e estímulo ao movimento, oferecendo oportunidades constantes de desenvolvimento motor em contextos lúdicos, variados e integrados à rotina pedagógica.
Brincadeiras simples para desenvolver a coordenação motora
O desenvolvimento da coordenação motora no Maternal ocorre de forma lúdica, por meio de brincadeiras que despertam o interesse da criança e estimulam tanto os movimentos amplos quanto os mais precisos, conforme preconiza o campo de experiências “Corpo, Gestos e Movimentos” da BNCC (BRASIL, 2018). Essas atividades motoras não devem ser isoladas, mas sim integradas à rotina diária de forma intencional. Segundo Rodrigues e Almeida (2015), quando a rotina é bem estruturada e respeita o ritmo individual de cada criança, ela oferece a segurança emocional necessária para que os pequenos explorem suas capacidades físicas com confiança e autonomia.
Brincadeiras para coordenação motora fina
Pintura com os dedos
A pintura com os dedos é uma atividade sensorial que permite à criança explorar cores e texturas, ao mesmo tempo em que fortalece músculos das mãos e dedos. Movimentos como apertar, espalhar e misturar a tinta desenvolvem a destreza e a precisão manual, competências que a BNCC (BRASIL, 2018) classifica como essenciais para a exploração de materiais e formas. De acordo com Fleer (2010), atividades que envolvem a manipulação direta não apenas contribuem para a coordenação óculo-manual, mas são formas fundamentais de expressão criativa onde a criança começa a atribuir significados ao que produz, integrando o desenvolvimento motor ao pensamento simbólico.Benefícios: melhora da coordenação mão-olho, fortalecimento da musculatura fina, estímulo à criatividade e à concentração.
Brincadeiras com massinha de modelar
A modelagem com massinha permite que a criança realize movimentos de pinça, aperto e amassamento, essenciais para o desenvolvimento da motricidade fina que servirá de base para a futura transição à escrita. Além de incentivar a imaginação e o raciocínio espacial, essa prática está alinhada aos objetivos de aprendizagem da BNCC (BRASIL, 2018), que prevê a exploração de diferentes texturas e formas para o aprimoramento do controle muscular e da coordenação óculo-manual.
Benefícios fundamentados por Fleer (2010) e BNCC (BRASIL, 2018):
- Fortalecimento muscular: desenvolvimento da força intrínseca dos dedos e mãos através da resistência do material;
- Pensamento simbólico: estímulo à criatividade e à capacidade de representar o mundo real através da forma;
- Destreza e precisão: melhora da coordenação motora fina indispensável para a autonomia em tarefas cotidianas.
Montagem de quebra-cabeças simples
Montar quebra-cabeças exige que a criança manipule peças pequenas e observe formas e encaixes, promovendo a percepção espacial e a coordenação motora fina. Segundo as diretrizes da BNCC (BRASIL, 2018), esse tipo de atividade é fundamental para que a criança aprenda a identificar propriedades de objetos e a resolver problemas simples por meio da exploração física. Para Fleer (2010), o quebra-cabeça atua como um mediador do pensamento lógico, transformando a manipulação mecânica em um processo de construção mental e visual.
Benefícios fundamentados pela BNCC (BRASIL, 2018) e Fleer (2010):
- Coordenação motora fina: refinamento dos movimentos de precisão ao alinhar e encaixar peças pequenas;
- Percepção visual e espacial: capacidade de reconhecer padrões, cores e formas no espaço;
- Concentração e autorregulação: foco prolongado necessário para concluir o desafio proposto;
- Raciocínio lógico: desenvolvimento da estratégia de tentativa e erro para a resolução de problemas.
Brincadeiras para coordenação motora grossa
Amarelinha
A amarelinha envolve pular e equilibrar-se em um padrão demarcado no chão, incentivando a força, o equilíbrio e o controle corporal. No Maternal, essas experiências são fundamentais para o campo de experiências “Corpo, Gestos e Movimentos”, onde a criança aprende a coordenar suas habilidades motoras em relação ao espaço. Segundo Fleer (2010), brincadeiras tradicionais como a amarelinha são “ferramentas culturais” que permitem à criança internalizar regras e limites físicos de forma lúdica. Para os pequenos de 1 a 3 anos, a atividade pode ser adaptada com círculos grandes ou linhas coloridas, respeitando o nível de maturação biológica e incentivando a progressão do controle postural.
Benefícios fundamentados pela BNCC (2018) e Fleer (2010):
- Equilíbrio dinâmico: desenvolvimento da capacidade de manter a estabilidade durante a troca de apoios;
- Percepção espacial e lateralidade: noção de direção, limites e posicionamento do corpo no ambiente demarcado;
- Força e controle postural: fortalecimento dos membros inferiores e estabilização do tronco para a execução do salto;
- Internalização de regras: início da compreensão de sequências e padrões lógicos através do movimento.
Pular corda (com auxílio ou corda baixa)
Pular corda é uma atividade complexa que desenvolve força, coordenação, ritmo e resistência cardiovascular. Para crianças na fase do Maternal, a BNCC (BRASIL, 2018) sugere adaptações lúdicas, como saltos sobre cordas esticadas no chão ou movimentos de “cobrinha”, respeitando o controle postural e a progressão dos saltos. Segundo Fleer (2010), ao integrar o movimento físico com a cadência rítmica, a criança aprimora a percepção temporal e a agilidade, transformando o esforço físico em uma experiência de descoberta das capacidades do próprio corpo. Essas vivências são essenciais para a construção da consciência corporal e da autoconfiança no ambiente escolar.
Benefícios fundamentados pela BNCC (BRASIL, 2018) e Fleer (2010):
- Coordenação motora grossa: sincronização de grandes grupos musculares para a execução do salto e equilíbrio;
- Desenvolvimento do ritmo: capacidade de ajustar o movimento a um tempo ou cadência externa;
- Resistência e agilidade: estímulo à saúde cardiovascular e rapidez de resposta motora;
- Percepção temporal: compreensão intuitiva de intervalos e sucessão de movimentos no brincar.
Brincadeiras de percurso ou circuito de obstáculos
Criar um percurso com almofadas, cones ou pequenos obstáculos estimula a criança a correr, pular, rastejar e contornar objetos, integrando o movimento à percepção do espaço. De acordo com a BNCC (BRASIL, 2018), essas brincadeiras de percurso são fundamentais para que as crianças aprendam a adaptar seus movimentos às características dos objetos e às limitações do ambiente, promovendo a consciência corporal. Para Rodrigues e Almeida (2015), a estruturação de circuitos de obstáculos funciona como um desafio pedagógico que exige planejamento e previsibilidade, oferecendo à criança a oportunidade de testar seus limites físicos em um espaço seguro e intencionalmente organizado.
Benefícios fundamentados pela BNCC (BRASIL, 2018) e Rodrigues & Almeida (2015):
- Desenvolvimento do equilíbrio e força: estímulo à estabilidade postural e resistência muscular durante a transposição de obstáculos;
- Coordenação motora grossa: integração de grandes grupos musculares para ações coordenadas como saltar e rastejar;
- Orientação espacial: compreensão prática de conceitos como “dentro”, “fora”, “em cima” e “embaixo”;
- Planejamento de Movimentos: Desenvolvimento da capacidade cognitiva de antecipar a ação motora para superar um desafio físico.
Essas brincadeiras podem ser adaptadas conforme o espaço disponível e a quantidade de crianças. A supervisão adulta garante a segurança e permite ajustes individuais, garantindo que cada criança explore os movimentos sem riscos. Além disso, integrar essas atividades à rotina pedagógica promove aprendizagem significativa, conforme destaca a BNCC (BRASIL, 2018), que reforça o papel das experiências lúdicas no desenvolvimento integral da criança.
Dicas para adaptar as brincadeiras ao ambiente escolar e domiciliar
As brincadeiras que estimulam a coordenação motora podem ser adaptadas facilmente para diferentes ambientes, desde salas de aula do Maternal até espaços domésticos, garantindo que as crianças tenham oportunidades de desenvolvimento físico e cognitivo de forma segura e prazerosa.
No contexto escolar, a organização do espaço físico é compreendida como um “educador silencioso” que deve convidar a criança à exploração. Conforme orienta a BNCC (BRASIL, 2018), o ambiente deve ser planejado para permitir movimentos amplos, utilizando recursos como tapetes, almofadas e demarcações no chão para circuitos de obstáculos, que são essenciais para o desenvolvimento da motricidade grossa.
Além disso, a distribuição de materiais seguros, como blocos de construção e massinhas de modelar em estações rotativas, é uma estratégia fundamentada por Rodrigues e Almeida (2015). Essa estruturação do cotidiano não apenas mantém o interesse e o engajamento das crianças, mas também fortalece a previsibilidade da rotina. Segundo as autoras, esse cenário permite que os pequenos desenvolvam segurança emocional enquanto aprimoram a coordenação motora fina e a autonomia, transformando o espaço escolar em um ambiente de aprendizado contínuo.
Em casa, os cuidadores podem adaptar objetos cotidianos para criar experiências motoras lúdicas e significativas. Por exemplo, caixas de papelão podem se transformar em túneis para rastejar, enquanto almofadas e garrafas plásticas vazias servem como obstáculos e recursos para jogos de encaixe. De acordo com Fleer (2010), ao interagir com esses materiais em um contexto de brincadeira, a criança desenvolve não apenas a coordenação física, mas também a compreensão sobre as propriedades dos objetos e do espaço. É essencial que haja supervisão constante, garantindo que o estímulo esteja alinhado ao nível de desenvolvimento e segurança da criança, promovendo um ambiente de exploração confiável.
Além disso, a BNCC (BRASIL, 2018) reforça que o movimento deve ser parte integral da rotina da criança, seja na escola ou em casa, respeitando o ritmo individual e as particularidades de cada fase do desenvolvimento. A criatividade dos educadores e familiares permite transformar qualquer ambiente em um espaço de aprendizagem motora, incentivando a autonomia, a confiança e a curiosidade das crianças.
Conclusão
O desenvolvimento da coordenação motora no Maternal é essencial para o crescimento integral das crianças, influenciando diretamente áreas como a cognição, a linguagem, a socialização e a autonomia. Conforme as diretrizes da BNCC (BRASIL, 2018), brincadeiras como pintura com os dedos, modelagem com massinha e montagem de quebra-cabeças são fundamentais para o aprimoramento da motricidade fina, enquanto atividades como amarelinha e circuitos de obstáculos fortalecem a motricidade grossa e a percepção espacial. Para Fleer (2010), essas oportunidades lúdicas permitem que a criança explore seu corpo e o ambiente de forma intencional, transformando o fortalecimento muscular e a precisão dos movimentos em ferramentas de interação e descoberta no mundo ao seu redor.
Tanto em ambientes escolares quanto domésticos, é possível adaptar as atividades de acordo com o espaço e os materiais disponíveis, sempre garantindo supervisão e segurança. Integrar o movimento à rotina diária, conforme orienta a BNCC (BRASIL, 2018), potencializa o aprendizado e promove uma infância saudável, divertida e estimulante. Investir em brincadeiras motoras é, portanto, investir no desenvolvimento integral da criança desde os primeiros anos de vida.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em:.
FLEER, Marilyn. Early learning and development: cultural-historical concepts in play. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
RODRIGUES, D. H. B.; ALMEIDA, P. C. A. Educação infantil e rotina: dois elos que se fortalecem. Colloquium Humanarum, Presidente Prudente, v. 12, n. 1, p. 117-124, jan./abr. 2015.
