Atividades musicais no Maternal: como usar a música para ensinar

A música é uma das linguagens mais ricas para o desenvolvimento infantil, especialmente na Educação Infantil. Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o trabalho com música contribui para que as crianças ampliem sua sensibilidade, criatividade e expressão, favorecendo o desenvolvimento da escuta, da coordenação motora e da convivência social (BRASIL, 2018).

A BNCC destaca a música como uma das manifestações artísticas essenciais no campo das “Artes Visuais, Música, Teatro e Dança”, que devem ser exploradas desde o Maternal. Essa abordagem vai além do entretenimento: a música se torna um instrumento de aprendizagem interdisciplinar, que favorece o desenvolvimento cognitivo, linguístico e socioemocional (BRASIL, 2018).

De acordo com Beatriz Ilari (2014), pesquisadora em música e desenvolvimento infantil, “as experiências musicais precoces ajudam as crianças a desenvolver atenção, memória auditiva e empatia”, o que influencia positivamente a aprendizagem em diferentes áreas. Além disso, a autora ressalta que o contato cotidiano com sons e ritmos fortalece o vínculo entre professores e alunos, tornando o ambiente escolar mais afetivo e motivador.

Pesquisas internacionais reforçam essa visão. Um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology (GERRY; UNRAU; TRAINOR, 2012) mostra que bebês e crianças pequenas que participam de aulas musicais apresentam melhores habilidades comunicativas e sociais. A música, portanto, atua como uma linguagem universal capaz de integrar corpo, emoção e pensamento.

Dessa forma, trabalhar com atividades musicais no Maternal é uma maneira eficaz de unir cuidado e educação, respeitando o ritmo natural da criança e promovendo aprendizagens significativas por meio da ludicidade e da sensibilidade sonora.

Crianças de 1 a 3 anos sentadas em círculo em uma sala de Maternal. Elas sorriem e interagem enquanto tocam instrumentos simples de percussão, como pandeiros e chocalhos de materiais não convencionais. A cena ilustra a prática da musicalização ativa e a descoberta sonora por meio da experiência, conforme os conceitos de Gainza (1988) e as diretrizes da BNCC (2018).
Imagem ilustrativa: A roda de música no maternal – um espaço de convivência onde a exploração de ritmos e timbres fortalece os vínculos sociais e o desenvolvimento da linguagem.

O papel da música no desenvolvimento integral no Maternal

A música exerce uma influência multidimensional no desenvolvimento infantil, atuando nas esferas cognitiva, motora, emocional e social. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), ela é um componente essencial da Educação Infantil, integrada a campos como “Traços, sons, cores e formas” e “Corpo, gestos e movimentos”. Mais do que um recurso recreativo, a música é um direito de aprendizagem que permite à criança explorar sons e ritmos de forma lúdica e intencional.

Neurodesenvolvimento e cognição

A ciência comprova que o cérebro infantil possui alta plasticidade, permitindo que estímulos musicais reforcem conexões neurais vitais. Ilari (2014) destaca que o processamento musical — envolvendo percepção auditiva e memória — interage diretamente com os sistemas de linguagem e regulação emocional. Essas interações são fundamentais no Maternal, fase de expansão da coordenação motora e da comunicação, onde a musicalização favorece o aumento da memória auditiva e a compreensão de padrões rítmicos, facilitando competências ligadas ao desenvolvimento lógico-matemático.

A atitude pedagógica e o fazer musical

No cotidiano escolar, a musicalização deve respeitar os processos espontâneos e a curiosidade sonora. Segundo Gainza (1988), o “fazer musical” e a manipulação livre de sons e instrumentos não convencionais (como potes e garrafas) são condutas naturais que devem ser incentivadas como ferramentas de autoconhecimento e expressão.

Essa liberdade ganha eficácia através da mediação docente. Conforme aponta Madalozzo (2021), o papel do educador não é o ensino técnico, mas a garantia de um “envolvimento criativo”. É a atitude pedagógica do professor que valida as descobertas da criança e cria espaços seguros para que a improvisação floresça na rotina.

Benefícios sociais e a prática ativa

A prática musical regular fortalece a base para aprendizagens futuras, como a leitura e a escrita, ao aprimorar a atenção concentrada e a percepção sonora. Além do ganho individual, estudos da NAfME (2021) e de Gerry et al. (2012) demonstram que aulas de música ativas promovem o bem-estar e o desenvolvimento social. Crianças expostas a essas experiências apresentam maior sensibilidade emocional e melhor convivência em grupo, visto que a música envolve inerentemente cooperação e empatia.

Assim, cantar, dançar e explorar silêncios no Maternal não são meras distrações, mas estratégias pedagógicas fundamentais para o desenvolvimento global, unindo emoção e cognição em um processo de aprendizagem significativo.

Como planejar atividades musicais no Maternal de acordo com a BNCC

O planejamento de atividades musicais no Maternal deve respeitar os princípios da BNCC, que orienta a Educação Infantil a partir dos campos de experiências. A música está especialmente vinculada ao campo “Corpo, gestos e movimentos” e ao campo “Traços, sons, cores e formas”, pois envolve expressão, coordenação e criatividade (BRASIL, 2018).

Segundo a BNCC, as experiências com música devem ser planejadas de modo a estimular a exploração sonora, o canto, a dança e o uso expressivo da voz e do corpo. Nessa perspectiva, o professor atua como mediador, organizando o ambiente e os materiais para que a criança investigue, descubra e se expresse por meio do som.

Para Gainza (1988), a musicalização infantil deve privilegiar a vivência antes da teoria. Ela propõe que o ensino musical comece com jogos rítmicos e atividades de escuta ativa, nos quais as crianças experimentem sons de diferentes intensidades, timbres e durações. Essas práticas, além de promoverem a percepção auditiva e a atenção concentrada, atendem ao campo de experiências “Traços, sons, cores e formas” da BNCC, que incentiva a exploração de diversas fontes sonoras no cotidiano escolar.

De forma complementar, Beatriz Ilari (2014) enfatiza que planejar atividades musicais eficazes requer intencionalidade pedagógica. O educador precisa selecionar canções significativas, relacionadas ao universo infantil, que permitam a construção de vínculos afetivos e o reconhecimento de emoções. Ela afirma que “a música na Educação Infantil é mais eficaz quando o professor cria experiências significativas, e não apenas momentos recreativos” (ILARI, 2014).

Um bom planejamento musical para o Maternal pode incluir:

  • Cantos de roda com gestos corporais e percussão corporal;
  • Exploração de instrumentos simples, como chocalhos e tambores feitos de materiais recicláveis;
  • Histórias sonorizadas, em que a criança relaciona sons a personagens e ações;
  • Jogos de escuta, identificando sons do ambiente ou instrumentos;
  • Ritmos corporais, estimulando lateralidade e coordenação.

Essas propostas integram ludicidade e aprendizagem, favorecendo o desenvolvimento integral da criança — em consonância com as metas da BNCC e as pesquisas sobre educação musical.

Exemplos práticos de atividades musicais para o Maternal

As atividades musicais no Maternal devem ser planejadas com base em princípios lúdicos, respeitando o ritmo e as possibilidades expressivas de cada criança. A música, nessa faixa etária, não visa a formação de músicos, mas sim a exploração do som, do corpo e da imaginação como meios de aprendizagem.

Segundo Gainza (1988), as atividades musicais na primeira infância devem permitir que a criança descubra a música por meio da experiência, e não apenas por imitação. Isso significa criar contextos em que o som, o movimento e a emoção estejam integrados. A autora defende o uso de instrumentos simples e materiais não convencionais, como potes e garrafas com grãos, para incentivar a curiosidade sonora. Essa abordagem transforma o ambiente escolar em um campo de experimentação, onde a atitude mediadora do professor — conforme as pesquisas de Madalozzo (2021) publicadas na Revista da ABEM — é o que valida e amplia as descobertas da criança, promovendo um envolvimento verdadeiramente criativo.

Beatriz Ilari (2014) complementa essa visão ao afirmar que o papel do educador é “criar experiências sonoras significativas, nas quais a criança possa se expressar livremente e perceber a música como linguagem viva e relacional”. A autora ressalta que o canto, a escuta ativa e o movimento são recursos pedagógicos fundamentais para o desenvolvimento da atenção, da linguagem e da socialização.

Entre as atividades práticas mais eficazes no contexto do Maternal, destacam-se:

  1. Cantos de rotina – Cantar músicas que marcam momentos do dia (como “Hora do lanche” ou “Boa tarde”) ajuda a organizar o tempo e a criar segurança emocional;
  2. Oficina de sons – Explorar diferentes objetos para produzir sons e comparar timbres e intensidades. Essa atividade desenvolve a escuta atenta e o senso de descoberta;
  3. Histórias sonorizadas – Contar histórias curtas acompanhadas de sons e instrumentos simples, estimulando a imaginação e a associação entre som e narrativa;
  4. Ritmos corporais – Bater palmas, marchar, pular ou seguir o ritmo de músicas conhecidas favorece a coordenação motora e o senso rítmico;
  5. Brincadeiras de eco musical – O professor emite sons ou pequenas frases melódicas e as crianças repetem, fortalecendo memória auditiva e atenção.

Essas atividades, quando conduzidas de forma sensível e intencional, potencializam o desenvolvimento integral, conforme orienta a BNCC (BRASIL, 2018), ao promover interações significativas e experiências estéticas que unem corpo, emoção e conhecimento.

O papel do professor e a formação musical na Educação Infantil

O papel do professor na musicalização infantil vai muito além de ensinar canções ou acompanhar atividades rítmicas. Ele é o mediador entre a criança e a experiência sonora, criando condições para que o som seja explorado de forma livre, prazerosa e significativa. A BNCC (BRASIL, 2018) destaca que o professor deve planejar situações que integrem a música às diferentes áreas do conhecimento, promovendo interações, escuta atenta e expressão criativa.

Segundo Violeta Hemsy de Gainza (1988), o educador musical na primeira infância precisa ter uma escuta sensível e compreender o som como elemento de comunicação e de vínculo afetivo. A autora afirma que “a musicalização infantil é, antes de tudo, um processo de humanização por meio da arte” — o que exige do professor uma postura aberta à experimentação e ao diálogo.

Entretanto, muitos professores da Educação Infantil não possuem formação específica em música. Para Beatriz Ilari (2014), isso não deve ser visto como impedimento, mas como oportunidade de formação contínua. Ela destaca que o mais importante é o professor compreender a importância pedagógica da música e buscar recursos práticos e teóricos que o auxiliem no cotidiano da sala de aula.

Estudos recentes reforçam a importância da mediação docente qualificada. Conforme discutido por Madalozzo (2021) na Revista da ABEM, o envolvimento das crianças na musicalização depende de um ambiente de escuta e criação mediado por professores que integrem a música de forma interdisciplinar. Pesquisas sobre formação docente indicam que a presença da música na Educação Infantil está intrinsecamente ligada à atitude pedagógica e à disposição do professor em atuar como mediador, permitindo que a criança seja protagonista de suas experiências sonoras, independentemente de uma formação técnica musical formal do educador.

Desse modo, o professor do Maternal atua como facilitador de experiências sonoras, integrando música a brincadeiras, histórias e rotinas diárias. Sua sensibilidade, curiosidade e abertura para o aprendizado contínuo são os principais instrumentos para tornar a música um veículo de desenvolvimento integral na infância.

Conclusão

A música se apresenta como uma linguagem essencial na Educação Infantil, capaz de integrar desenvolvimento cognitivo, motor, emocional e social. Conforme destacado pela BNCC (BRASIL, 2018), experiências musicais devem ser parte do cotidiano do Maternal, promovendo atividades que envolvam canto, ritmo, movimento corporal e exploração sonora. Esses momentos favorecem a expressão individual, a cooperação em grupo e a construção de vínculos afetivos, contribuindo para o aprendizado integral da criança.

Para Violeta Hemsy de Gainza (1988), a musicalização infantil não é apenas uma disciplina artística, mas uma experiência de humanização, na qual a criança aprende a ouvir, comunicar-se e perceber o mundo ao seu redor. A autora enfatiza que o professor desempenha papel central ao criar ambientes que incentivem a exploração sonora, respeitando o ritmo e a curiosidade de cada criança.

Beatriz Ilari (2014) reforça que a música, quando incorporada de forma intencional e lúdica, desperta atenção, memória auditiva e habilidades linguísticas, servindo como ponte para outras áreas do conhecimento. Ela destaca que crianças que vivenciam música desde cedo apresentam maior autonomia, criatividade e capacidade de interação social.

Pesquisas contemporâneas também mostram que a prática musical fortalece a cognição e promove bem-estar emocional, sendo um recurso pedagógico que vai além do entretenimento (GERRY; UNRAU; TRAINOR, 2012).

Portanto, integrar a música ao currículo do Maternal não é opcional, mas uma estratégia pedagógica essencial. Cantar, ouvir, explorar sons, movimentar-se e criar ritmos permite que a criança aprenda brincando, consolidando habilidades motoras, cognitivas e socioemocionais de forma prazerosa e significativa. A música transforma o ambiente escolar em um espaço de descoberta, expressão e conexão, fundamentando-se como uma ferramenta indispensável no desenvolvimento integral da criança.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

FERREIRA, Eliene Pinto Costa; SILVA, Fabiana Cristina Oliveira; NUNES, Stefane Lopes; AZEVEDO, Gilson Xavier de. A importância da música na educação infantil e sua contribuição para o desenvolvimento cognitivo e motor. Revista REEDUC – Revista de Estudos em Educação, v. 10, n. 1, 2022.

GAINZA, Violeta Hemsy de. Estudos de Psicopedagogia Musical. São Paulo: Summus Editorial, 1988. (Coleção Novas Buscas em Educação, v. 31).

GERRY, David; UNRAU, Andrea; TRAINOR, Laurel J. Active music classes in infancy enhance musical, communicative and social development. Developmental Science, v. 15, n. 3, p. 398–407, 2012.

ILARI, Beatriz. A música e o cérebro: algumas implicações do neurodesenvolvimento para a educação musical. Revista da ABEM, 2014.

MADALOZZO, Tiago. Eu quero [ouvir] de novo!: o envolvimento criAtivo de crianças de cinco anos na musicalização infantil. Revista da ABEM, v. 29, p. 120-136, 2021.

NAfME – National Association for Music Education. Position Statements on Music Education. Reston, VA: NAfME, 2021.


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