BNCC na Pré-escola: habilidades essenciais dos 4 a 5 anos

A Educação Infantil, especialmente na faixa etária de 4 a 5 anos, representa um período decisivo no desenvolvimento integral da criança. É nessa fase que ela avança em sua autonomia, amplia suas formas de expressão, fortalece vínculos sociais e constrói bases essenciais para aprendizagens futuras. Para orientar esse processo, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece direitos, objetivos e habilidades fundamentais que devem ser garantidos a todas as crianças brasileiras.

Segundo o documento, a Educação Infantil deve assegurar experiências que promovam o desenvolvimento nos aspectos físico, afetivo, intelectual, social e linguístico (BRASIL, 2018). Nesse sentido, a BNCC não define conteúdos rígidos, mas organiza as aprendizagens a partir de Campos de Experiência, que respeitam o modo como a criança pequena aprende: pela brincadeira, pela exploração e pelas interações sociais.

Estudos de referência em desenvolvimento infantil, como os de Zilma de Moraes Ramos de Oliveira (2010), reforçam que a criança nessa etapa constrói conhecimento ativamente, investigando, levantando hipóteses e se apropriando da cultura por meio de experiências significativas. Assim, conhecer as habilidades essenciais previstas para crianças de 4 a 5 anos permite que educadores, escolas e famílias planejem práticas pedagógicas intencionais, oferecendo oportunidades reais para que cada criança se desenvolva plenamente.

Este artigo apresenta, de forma clara e acessível, as habilidades essenciais da BNCC para a pré-escola, explicando como cada campo de experiência contribui para o desenvolvimento integral e oferecendo caminhos práticos para implementação no cotidiano escolar.

Uma sala de aula de pré-escola ampla, iluminada e colorida. No centro, uma educadora de cabelos escuros observa com um sorriso um grupo de crianças. As crianças estão organizadas em diferentes atividades: algumas exploram livros em almofadas, outras manipulam instrumentos musicais e materiais artísticos, e um pequeno grupo conversa em roda. O ambiente é acolhedor, com tons suaves, transmitindo uma sensação de curiosidade, movimento e autonomia infantil.
Imagem ilustrativa: Crianças engajadas em diferentes estações de aprendizagem, sob a mediação de uma educadora, vivenciando o brincar e a interação como eixos fundamentais do desenvolvimento integral

O que a BNCC define para a Pré-escola (4 a 5 anos)

A BNCC organiza a Educação Infantil a partir de dois princípios estruturantes: brincar e interagir, entendendo que é por meio dessas experiências que as crianças constroem conhecimentos e desenvolvem habilidades fundamentais. Para garantir o desenvolvimento integral, o documento apresenta seis direitos de aprendizagem: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se (BRASIL, 2018). Esses direitos orientam todas as práticas pedagógicas na pré-escola, inclusive para crianças de 4 a 5 anos.

Além dos direitos, a BNCC define que as aprendizagens devem acontecer por meio dos Campos de Experiência, que agrupam objetivos de desenvolvimento baseados nas formas reais como as crianças pensam, sentem e agem no mundo.

Campos de Experiências

  1. O eu, o outro e o nós
  2. Corpo, gestos e movimentos
  3. Traços, sons, cores e formas
  4. Escuta, fala, pensamento e imaginação
  5. Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações

Cada campo contempla objetivos específicos para a faixa etária de 4 a 5 anos, que correspondem a conquistas esperadas, como ampliar a capacidade de comunicação, desenvolver autonomia, expressar emoções, elaborar explicações sobre o mundo, utilizar o corpo de forma consciente e interagir com elementos matemáticos, espaciais e naturais.

Segundo Oliveira (2010), trabalhar a partir desses campos favorece uma prática pedagógica integrada, que reconhece a criança como sujeito ativo, competente e curioso. Essa abordagem evita a fragmentação do ensino e potencializa experiências ricas, que conectam linguagem, corpo, pensamento e afetividade.

Assim, compreender o que a BNCC estabelece para a pré-escola não significa seguir uma lista de tarefas, mas construir intencionalmente oportunidades para que cada criança desenvolva, no seu tempo, habilidades essenciais para a vida escolar e social.

Campo 1: O eu, o outro e o nós

O campo de experiência “O eu, o outro e o nós” é central na faixa etária de 4 a 5 anos, pois trata do desenvolvimento social, emocional, ético e identitário da criança. Segundo a BNCC, esse campo tem como objetivo promover experiências que permitam às crianças construir uma imagem positiva de si mesmas, reconhecer emoções, conviver com o diferente e aprender a resolver conflitos de forma construtiva (BRASIL, 2018).

Nesta fase, as crianças ampliam sua capacidade de participação em grupos, começam a compreender regras sociais mais complexas e desenvolvem maior autonomia nas interações. Elas também passam a demonstrar empatia, negociar papéis em brincadeiras e expressar sentimentos com mais clareza.

A BNCC define habilidades essenciais para esse campo entre 4 e 5 anos, como:

  • Expressar ideias, opiniões e sentimentos;
  • Respeitar regras simples de convivência;
  • Cooperar em brincadeiras coletivas;
  • Reconhecer as próprias emoções e as dos colegas;
  • Resolver pequenos conflitos com apoio do adulto.

Esse processo está alinhado às teorias de Lev Vygotsky (1998), que afirma que o desenvolvimento infantil ocorre nas interações sociais. Para ele, o aprendizado desperta processos internos que só podem ocorrer quando a criança interage com outras pessoas (VYGOTSKY, 1998). Ou seja, é convivendo, brincando e participando que ela aprende a se reconhecer como sujeito singular e integrante de um grupo.

De acordo com Oliveira (2010), a escola deve criar contextos intencionais que favoreçam a expressão emocional, o diálogo e a cooperação, pois essas experiências formam a base das relações sociais e da construção da identidade.

Assim, trabalhar esse campo de experiência é fundamental para que as crianças desenvolvam habilidades socioemocionais essenciais para toda a vida escolar e pessoal.

Campo 2: Corpo, gestos e movimentos

O campo de experiência “Corpo, gestos e movimentos” abrange as habilidades motoras, expressivas e perceptivas que as crianças desenvolvem intensamente entre 4 e 5 anos. A BNCC destaca que, nessa etapa, a criança amplia seu domínio sobre o corpo, experimenta novos movimentos e utiliza gestos como forma de comunicação e expressão (BRASIL, 2018).

As principais habilidades previstas para essa faixa etária incluem:

  • Aprimorar o equilíbrio, coordenação e força corporal;
  • Experimentar movimentos amplos (correr, saltar, rolar, arremessar, equilibrar-se);
  • Utilizar movimentos finos em atividades de desenho, recorte, encaixe e manipulação;
  • Expressar-se corporalmente em brincadeiras, danças e jogos dramáticos;
  • Perceber limites, possibilidades e sensações do próprio corpo.

O desenvolvimento motor nessa fase está diretamente relacionado ao desenvolvimento cognitivo, emocional e linguístico. Segundo Gallahue, Ozmun e Goodway (2013), as habilidades motoras fundamentais — como correr, saltar, lançar, equilibrar-se e manipular objetos — criam a base para aprendizagens mais complexas no futuro. Os autores afirmam que “o desenvolvimento motor é um processo contínuo e interdependente, que influencia e é influenciado por outros domínios do desenvolvimento humano”.

A BNCC reforça que todas essas aprendizagens devem ocorrer em ambientes ricos em desafios, explorações e brincadeiras, onde a criança possa experimentar o corpo em ação, observar o corpo do outro e criar novas formas de se movimentar (BRASIL, 2018).

De acordo com Oliveira (2010), a escola tem papel fundamental em oferecer materiais variados, espaços seguros e tempo suficiente para que as crianças explorem diferentes movimentos, expressando ideias e emoções por meio do corpo.

Assim, trabalhar esse campo de experiência significa promover autonomia, consciência corporal, criatividade e confiança — competências essenciais para o desenvolvimento integral.

Campo 3: Traços, sons, cores e formas

O campo de experiência “Traços, sons, cores e formas” contempla as múltiplas linguagens artísticas que permitem à criança se expressar, criar e atribuir significado ao mundo. Entre 4 e 5 anos, essas habilidades se intensificam: a criança passa a produzir desenhos mais intencionais, explorar sons com maior necessidade de ritmo, combinar cores com propósito e criar composições cada vez mais elaboradas. A BNCC destaca que esse campo promove experiências estéticas, sensíveis e expressivas fundamentais para o desenvolvimento integral (BRASIL, 2018).

As habilidades essenciais previstas para essa faixa etária envolvem:

  • Explorar diferentes materiais (pincéis, lápis, papéis variados, sucatas, instrumentos sonoros);
  • Expressar ideias por meio de traços, cores e formas;
  • Criar composições visuais, musicais e corporais;
  • Perceber ritmos, intensidades e sons do ambiente;
  • Reconhecer obras, músicas, objetos culturais e manifestações artísticas.

Segundo Zilma de Moraes Ramos de Oliveira (2010), a arte na Educação Infantil permite que a criança desenvolva imaginação, criatividade, sensibilidade estética e competências cognitivas relacionadas à observação, análise e tomada de decisão. A autora enfatiza que o papel da escola não é ensinar a criança a “desenhar corretamente”, mas oferecer oportunidades ricas para exploração livre, experimentação e criação.

Estudos de desenvolvimento infantil também mostram que atividades artísticas fortalecem a coordenação motora fina, a percepção visual e a atenção. Para Gallahue, Ozmun e Goodway (2013), essas experiências favorecem a integração das funções sensoriais e motoras, importantes para aprendizagens futuras, inclusive a alfabetização.

Assim, ao trabalhar o campo “Traços, sons, cores e formas”, a escola contribui para que a criança desenvolva não apenas habilidades artísticas, mas também capacidades linguísticas, emocionais e cognitivas que a acompanham por toda a vida.

Campo 4: Escuta, fala, pensamento e imaginação

O campo “Escuta, fala, pensamento e imaginação” é um dos mais importantes para crianças de 4 a 5 anos, pois integra linguagem oral, pensamento lógico, criatividade, imaginação e construção de narrativas. A BNCC destaca que, nessa fase, as crianças ampliam suas capacidades comunicativas, organizam ideias de maneira mais estruturada e se envolvem em conversas, debates e brincadeiras simbólicas que enriquecem seu vocabulário e compreensão do mundo (BRASIL, 2018).

Entre as habilidades essenciais previstas para essa faixa etária estão:

  • Relatar acontecimentos e experiências pessoais;
  • Formular perguntas e hipóteses sobre o mundo;
  • Criar e recontar histórias, ampliando a imaginação;
  • Escutar com atenção e participar de conversas;
  • Descrever situações, objetos e imagens;
  • Explorar textos orais variados (poemas, histórias, cantigas, parlendas).

Segundo Artur Gomes de Morais (2019), o desenvolvimento da linguagem oral na pré-escola é fundamental para a alfabetização posterior, pois fortalece a consciência fonológica, amplia o vocabulário e favorece a compreensão de estruturas narrativas. Ele afirma que “a oralidade é parte essencial do processo de alfabetizar, pois, ao falar e ouvir, a criança organiza o pensamento e compreende como a linguagem funciona”.

A imaginação também desempenha papel central: nas brincadeiras de faz de conta, as crianças atribuem novos significados aos objetos, constroem enredos e assumem personagens. De acordo com Vygotsky (1998), a brincadeira simbólica eleva o pensamento da criança a níveis mais complexos, permitindo que ela planeje ações, antecipe consequências e experimente diferentes possibilidades cognitivas e emocionais.

Ao promover experiências ricas de oralidade, narrativas, escuta atenta e imaginação, a escola cumpre o papel de ampliar a capacidade comunicativa e criadora da criança — competências fundamentais tanto para a vida social quanto para a futura alfabetização.

Campo 5: Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações

O campo “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações” é dedicado às experiências que desenvolvem nas crianças de 4 a 5 anos as bases do pensamento matemático, científico e investigativo. A BNCC destaca que, nessa fase, as crianças começam a elaborar explicações sobre acontecimentos do cotidiano, observam fenômenos naturais, exploram noções de contagem e medida e estabelecem relações entre objetos, pessoas e ambientes (BRASIL, 2018).

As habilidades essenciais para essa faixa etária incluem:

  • Contar oralmente objetos, pessoas e elementos do ambiente;
  • Comparar quantidades (mais, menos, igual);
  • Perceber formas geométricas em objetos e espaços;
  • Observar plantas, animais e fenômenos naturais;
  • Explorar noções de tempo (antes, depois, agora, rápido, devagar);
  • Organizar objetos em categorias (cor, tamanho, função);
  • Investigar transformações (misturas, crescimento, mudanças no ambiente).

Segundo Constance Kamii (1986), o desenvolvimento matemático na Educação Infantil ocorre de forma construtiva: a criança não “recebe” a matemática pronta, mas a constrói por meio de ações e reflexões sobre o mundo real. Ao manipular objetos, comparar quantidades, classificar materiais e observar fenômenos, ela desenvolve noções fundamentais para o pensamento lógico e numérico.

A BNCC reforça essa perspectiva ao afirmar que as aprendizagens devem acontecer em situações significativas, integradas ao cotidiano da criança e articuladas ao brincar. Isso inclui jogos de tabuleiro simples, brincadeiras de esconder objetos, sequências lógicas, exploração da natureza e atividades de construção com blocos.

Para Oliveira (2010), o papel do professor é criar oportunidades de investigação, formular perguntas que desafiem o pensamento infantil e incentivar a curiosidade científica, permitindo que a criança observe, experimente e formule hipóteses sobre o mundo.

Assim, trabalhar esse campo significa promover uma educação que desenvolve raciocínio lógico, curiosidade, capacidade de investigação e compreensão do espaço e do tempo — competências essenciais para toda a vida escolar.

Como implementar as habilidades da BNCC na prática escolar (4–5 anos)

A implementação das habilidades da BNCC para crianças de 4 a 5 anos exige práticas pedagógicas intencionais, planejadas e baseadas no brincar, na exploração e nas interações — os três pilares da Educação Infantil. Para que essas aprendizagens aconteçam de forma significativa, a escola deve estruturar ambientes que favoreçam a autonomia, a investigação e o diálogo.

A BNCC orienta que a organização curricular deve partir dos Campos de Experiência, articulando-os com projetos, sequências didáticas e atividades contínuas que respeitem os interesses das crianças e ampliem suas possibilidades de expressão (BRASIL, 2018). Isso significa que o trabalho não deve ser fragmentado em “aula de matemática”, “aula de linguagem”, mas integrado em propostas ricas, como:

  • Rodas de conversa;
  • Projetos de investigação;
  • Brincadeiras simbólicas;
  • Exploração da natureza;
  • Atividades artísticas e corporais;
  • Uso de materiais variados (blocos, livros, instrumentos musicais, sucatas).

A avaliação, segundo Zabalza (2006), deve ser contínua, qualitativa e baseada em observação: registros, fotografias, portfólios, relatórios e conversas com as famílias. Ela não tem caráter classificatório, mas busca compreender como a criança aprende e se desenvolve em diferentes contextos.

A formação docente também é essencial. Conforme destaca Oliveira (2010), educadores da Educação Infantil precisam compreender profundamente o desenvolvimento infantil para propor experiências adequadas e acolhedoras.

Além disso, a escola deve promover parcerias com as famílias, compartilhando os objetivos das propostas, explicando a importância do brincar e sugerindo formas de ampliar as aprendizagens em casa.

Implementar a BNCC, portanto, é um processo contínuo que exige intencionalidade, sensibilidade pedagógica e compromisso com o desenvolvimento integral da criança.

Conclusão 

A BNCC representa um marco importante na organização da Educação Infantil no Brasil, garantindo que todas as crianças — independentemente de sua região, escola ou contexto social — tenham acesso a oportunidades de aprendizagem que respeitam seu desenvolvimento e suas necessidades. Para a faixa etária de 4 a 5 anos, o documento estabelece habilidades essenciais que contemplam dimensões cognitivas, sociais, emocionais, motoras e expressivas, promovendo uma visão integral e humanizada da educação.

Ao compreender os Campos de Experiência e as habilidades previstas para essa etapa, educadores e famílias podem criar ambientes mais ricos, acolhedores e estimulantes. A BNCC reforça que, nessa fase, a aprendizagem acontece sobretudo pelo brincar, pela exploração, pela imaginação e pelas interações — ferramentas fundamentais para que a criança construa conhecimento de forma ativa.

A implementação prática dessas habilidades, como vimos, exige formação docente, planejamento pedagógico intencional, ambientes preparados e avaliação contínua. Segundo Zabalza (2006), documentar e observar o percurso da criança permite compreender a complexidade de seu desenvolvimento e ajustar práticas com sensibilidade e responsabilidade.

Mais do que uma lista de metas, a BNCC é um convite para refletir sobre a qualidade das experiências que oferecemos na pré-escola. Quando olhamos para cada criança como sujeito de direitos, competente e curioso, a educação se torna mais significativa e transformadora.

Referências

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

GALLAHUE, David L.; OZMUN, John C.; GOODWAY, Jacqueline D. Compreendendo o Desenvolvimento Motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

KAMII, Constance. A criança e o número. Campinas: Papirus, 1986.

MORAIS, Artur Gomes de. Consciência Fonológica. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2010.

VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ZABALZA, Miguel. Qualidade na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2006.

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