Estimular a leitura na Pré-escola é uma das formas mais eficazes de desenvolver linguagem, imaginação, emoção e pensamento crítico nas crianças. Antes mesmo de aprenderem a decodificar as palavras, elas já são capazes de interpretar imagens, antecipar enredos, criar hipóteses, identificar personagens e construir sentidos — competências fundamentais para o processo de alfabetização. Por isso, o contato com livros e histórias deve fazer parte da rotina desde cedo, sempre de maneira agradável e significativa.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) destaca que a Educação Infantil deve garantir experiências que envolvam “escuta, leitura e produção de textos orais e escritos, ampliando as possibilidades de participação das crianças em práticas sociais de uso da linguagem” (BRASIL, 2018). Isso significa que a leitura não pode ser um momento isolado, mas sim algo presente nas brincadeiras, nas conversas e nas interações do cotidiano escolar.
A literatura infantil, os jogos de linguagem e as histórias compartilhadas promovem aprendizagens riquíssimas. De acordo com Vygotsky (1998), a imaginação presente nas narrativas é essencial para o desenvolvimento do pensamento simbólico, elemento central na formação da leitura e da escrita. Já Zilma de Moraes Ramos de Oliveira (2010) reforça que, ao brincar com histórias e jogos, a criança amplia o vocabulário, organiza o pensamento e desenvolve autonomia expressiva.
Este artigo apresentará estratégias práticas, divertidas e fundamentadas que ajudam a estimular a leitura na Pré-escola por meio de jogos e histórias, alinhadas à BNCC e adequadas à realidade pedagógica da Educação Infantil.

A leitura na Pré-escola segundo a BNCC
A leitura na Pré-escola é um processo que vai muito além do contato com livros infantis. Envolve escuta, imaginação, conversa, interpretação, antecipação, observação de imagens, reconstrução de enredos e participação ativa em práticas sociais de linguagem. Conforme orienta a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), crianças de 4 a 5 anos devem vivenciar situações reais de leitura que ampliem sua compreensão do mundo e favoreçam o desenvolvimento da oralidade e do pensamento.
No documento oficial, a leitura está inserida no Campo de Experiência “Escuta, fala, pensamento e imaginação”, que destaca o papel das interações e da narrativa no desenvolvimento integral. A BNCC afirma:
É fundamental oferecer às crianças experiências com diferentes práticas de leitura e escuta de textos, em contextos de brincadeira, interação e participação.(BRASIL, 2017)
Isso significa que, na Pré-escola, as crianças não estão aprendendo a ler convencionalmente, mas construindo conhecimentos que servirão de base para a alfabetização, tais como:
- reconhecer elementos de uma história (personagens, cenários, ações);
- antecipar acontecimentos;
- recontar narrativas;
- interpretar emoções e intenções dos personagens;
- explorar livros de diferentes gêneros;
- compreender funções sociais da leitura (informar, divertir, instruir).
Essas habilidades surgem em ambientes ricos em literatura, com leituras diárias feitas pelo professor, rodas de conversa, brincadeiras simbólicas, dramatizações e atividades de exploração de livros.
A BNCC também reforça que a leitura deve estar associada à oralidade, à participação ativa e ao diálogo. Portanto, práticas como leitura compartilhada, reconto, perguntas abertas e exploração das ilustrações são fundamentais.
Zilma de Oliveira (2010) destaca que, quando a criança participa dessas experiências de forma significativa, ela desenvolve prazer pela leitura e constrói uma relação afetiva com os livros — condição essencial para que se torne um leitor no futuro.
A importância do lúdico no processo de formação de leitores
O lúdico é o caminho natural pelo qual a criança pequena aprende. Jogos, brincadeiras, histórias, imaginação e dramatizações fazem parte da forma como ela explora, interpreta e compreende o mundo. Por isso, quando pensamos em formação de leitores na Pré-escola, o lúdico não é apenas uma estratégia adicional — é o método central, como reforçam os principais estudiosos do desenvolvimento infantil.
Segundo Vygotsky (1998), o brincar simbólico é essencial para o desenvolvimento da linguagem, pois permite que a criança utilize a imaginação para representar situações, criar personagens e produzir narrativas. Ele afirma que:
“A imaginação e a atividade simbólica são fundamentais para a formação do pensamento.”
Essa capacidade de criar cenas, antecipar acontecimentos e interpretar emoções aproxima a criança da estrutura da leitura, que também é um processo de construção de sentidos.
Além disso, as histórias e jogos favorecem o desenvolvimento de habilidades fundamentais, como:
- ampliação do vocabulário;
- organização do pensamento;
- memória narrativa;
- consciência fonológica;
- compreensão de sequência e coerência;
- expressão oral;
- capacidade de argumentar e justificar.
Zilma de Moraes Ramos de Oliveira (2010) reforça que o lúdico facilita a participação ativa das crianças, que se envolvem com mais interesse e prazer quando há elementos simbólicos, personagens, materiais sensoriais e momentos de interação.
Jogos de linguagem, fantoches, adivinhações, dramatizações e brincadeiras de reconto transformam a leitura em uma experiência viva, afetiva e significativa. Assim, a criança não apenas escuta ou observa, mas participa, se envolve e reconstrói o texto por meio de suas próprias interpretações.
Portanto, o lúdico é o caminho mais potente para estimular a leitura na Pré-escola, pois integra imaginação, linguagem, emoção e interação — elementos essenciais para a aprendizagem e ampliação do vocabulário. Além disso, tornam o processo de aprendizagem mais prazeroso e significativo.
Estratégias práticas com histórias para estimular a leitura
As histórias são uma das ferramentas mais potentes para estimular a leitura na Pré-escola. Elas ampliam o vocabulário, desenvolvem o pensamento narrativo, fortalecem vínculos afetivos e incentivam a imaginação. A seguir, apresento estratégias práticas e fundamentadas para enriquecer a experiência literária das crianças.
Leitura dialogada
Em vez de ler o livro de maneira contínua, faça pausas para conversar:
- O que você acha que vai acontecer agora?
- Quem é esse personagem?
- Como ele está se sentindo?
- O que essa imagem está mostrando?
Essa abordagem desenvolve antecipação, inferência e interpretação.
Segundo Ferreiro e Teberosky (1999), a criança constrói hipóteses sobre textos quando participa ativamente da leitura
Maleta ou mochila de histórias
A criança leva para casa uma maleta com:
- um livro;
- um boneco ou objeto relacionado;
- uma ficha para registrar (por desenho) o que mais gostou na história.
As famílias passam a compartilhar o momento de leitura, fortalecendo o vínculo afetivo com os livros.
Teatro de fantoches ou personagens
Após ouvir a história, as crianças podem recontá-la usando:
- fantoches;
- palitos com personagens;
- dedoches;
- máscaras simples.
Essa dramatização fortalece memória narrativa, oralidade e criatividade.
Sacola surpresa literária
Coloque objetos dentro de uma sacola relacionados a uma história (ex.: cesta, capa vermelha, maçã).
Antes de revelar o livro, deixe as crianças preverem qual história será lida.
Essa atividade desenvolve antecipação e inferência, essenciais para o processo leitor.
Histórias sequenciais com cartões ilustrados
Após a leitura, entregue cartões com as cenas principais.
Peça às crianças que organizem as imagens na ordem correta.
Isso trabalha sequência lógica, compreensão textual e narrativa.
Estas estratégias tornam a leitura prazerosa, participativa e significativa. Como afirma Ferreiro (1999), a criança aprende sobre a língua escrita em situações reais de uso, e não por meio de exercícios isolados.
A seguir, você encontrará jogos práticos e fáceis de aplicar em qualquer contexto escolar.
Jogo da memória com personagens ou palavras-chave
- personagens das histórias lidas;
- objetos importantes;
- palavras simples acompanhadas de imagens.
As crianças devem encontrar os pares.
Habilidades estimuladas: vocabulário, memória visual, reconhecimento de elementos narrativos e primeiras relações entre palavra e imagem.
Bingo das palavras e imagens
Prepare cartelas com figuras e palavras simples (ex.: gato, bola, casa).
O professor sorteia as palavras e as crianças marcam a imagem correspondente.
Habilidades: atenção, associação palavra–imagem e reconhecimento inicial de palavras.
Dominó das rimas
Crie peças com palavras que rimam:
- casa – asa;
- gato – sapato;
- rato – mato.
A criança conecta as peças pela rima.
Essa atividade fortalece a consciência fonológica, habilidade essencial para a alfabetização. Conforme explica Artur Gomes de Morais (2018), atividades de rimas ajudam a criança a perceber semelhanças sonoras e a ⁸desenvolver sensibilidade fonêmica.
Caça-palavras ilustrado (Pré-silábico)
Em vez de letras embaralhadas, use imagens.
As crianças devem encontrar:
- o personagem da história;
- objetos destacados no livro;
- elementos escondidos na cena.
Habilidades: atenção, leitura de imagens, interpretação e vocabulário.
“Quem sou eu?” literário
O professor dá pistas sobre um personagem:
- “Eu uso capa vermelha e visito a minha avó.”
- “Eu moro em uma casinha de palha.”
As crianças devem adivinhar de quem se trata.
Habilidades: inferência, memória narrativa, oralidade.
Ao integrar jogos ao processo de leitura, a escola cria um ambiente acolhedor e envolvente. Como afirma Morais (2018):
“As habilidades de consciência fonológica se desenvolvem de forma natural quando a criança participa de jogos verbais significativos.”
Como organizar um ambiente letrado na Pré-escola
Um ambiente letrado na Pré-escola é aquele que convida a criança a interagir com textos de diferentes gêneros, de forma espontânea, prazerosa e significativa. A BNCC reforça que a Educação Infantil deve garantir experiências que ampliem o contato das crianças com práticas sociais de linguagem, permitindo que elas explorem livros, escrevam de forma espontânea e reconheçam a função comunicativa da escrita (BRASIL, 2018).
Organizar um ambiente adequado faz toda a diferença no desenvolvimento do interesse pela leitura. Segundo Magda Soares (2003), o letramento começa muito antes da alfabetização formal e envolve o uso social da escrita — bilhetes, listas, rótulos, sinais e textos presentes no cotidiano. Quanto mais a criança observa e interage com esses materiais, mais compreende para que serve a leitura.
Elementos essenciais para criar um espaço letrado na Pré-escola
Cantinho da leitura
- Estante baixa, na altura das crianças;
- Livros variados (poemas, contos, informativos, revistas infantis, adivinhas, parlendas);
- Tapetes, almofadas e iluminação confortável.
O ambiente precisa ser convidativo e afetivo.
Textos espalhados pela sala
- Listas de chamada;
- Calendário e rotina visual;
- Rótulos nos objetos;
- Bilhetes e plaquinhas.
Isso evidencia que leitura e escrita têm função real.
Materiais de escrita sempre à disposição
- Papéis variados;
- Lápis, giz, canetinhas;
- Quadro ou mural para produções espontâneas.
Diversidade cultural e literária
Inclua livros que valorizem diferentes culturas, sotaques, famílias e estilos de arte.
Criar um ambiente letrado é, portanto, criar oportunidades constantes para que as crianças interajam com a leitura em situações reais. Como afirma Soares (2003), “é a imersão em práticas sociais de leitura que forma o leitor”.
Leitura compartilhada entre crianças e família
A leitura não acontece apenas na escola: quando a família participa ativamente desse processo, os efeitos são ainda mais significativos. A leitura compartilhada fortalece vínculos afetivos, amplia o repertório cultural da criança e cria uma relação positiva com os livros desde cedo. Por isso, projetos que envolvem a família são fundamentais para estimular a leitura na Pré-escola.
De acordo com a BNCC, é importante que a criança vivencie “situações de leitura em diferentes contextos sociais” (BRASIL, 2017). Isso inclui a leitura em casa — um espaço onde o afeto e a rotina tornam o momento ainda mais especial.
O educador Maurice Tardif (2014) reforça que a aprendizagem é também um processo social e cultural. Assim, quando a família lê com a criança, conversa sobre histórias e incentiva a exploração de livros, contribui diretamente para a formação do leitor:
“Os saberes se constroem na relação com o outro e no contexto em que o sujeito vive.” (TARDIF, 2014)
Práticas que fortalecem a leitura compartilhada:
- Rotina de leitura em casa: Incentivar a família a reservar alguns minutos por dia para ler com a criança, mesmo que seja apenas uma pequena história antes de dormir;
- Empréstimo de livros pela escola: Envio semanal de livros para casa para que a criança compartilhe com os responsáveis;
- Registro simples da leitura: A criança pode desenhar a parte favorita da história. Isso cria vínculo e envolvimento, sem gerar cobrança;
- Projetos como “sacola da leitura”: A criança leva uma sacola com livro, personagem e orientações simples de uso;
- Eventos literários com as famílias: Tarde de histórias, oficinas de marca-páginas, feiras de livros.
Quando a leitura se transforma em um gesto de amor vivido em casa, a criança se torna naturalmente mais aberta, curiosa e motivada a ler.
Como avaliar o desenvolvimento leitor na Pré-escola
A avaliação do desenvolvimento leitor na Pré-escola não deve ter caráter classificatório nem buscar medir desempenho formal. Na perspectiva da Educação Infantil, avaliar significa acompanhar o percurso da criança, compreender suas descobertas, registrar suas hipóteses e observar sua evolução nas práticas de leitura e oralidade.
A BNCC orienta que a avaliação na Educação Infantil deve ser processual, contínua, qualitativa e baseada na observação (BRASIL, 2017). Isso envolve acompanhar como a criança:
- participa das leituras compartilhadas;
- comenta, reconta e interpreta histórias;
- identifica personagens, cenários e acontecimentos;
- observa imagens e cria hipóteses;
- demonstra interesse por livros e textos;
- amplia o vocabulário e a oralidade;
- desenvolve consciência fonológica por meio de jogos verbais.
O autor Miguel Zabalza (2006) reforça essa perspectiva ao afirmar:
“Avaliar é compreender o percurso da criança, e não classificá-la.”
Assim, o foco da avaliação deve estar nos processos, e não nos “resultados finais”. Por isso, recomenda-se utilizar instrumentos como:
✔️ Portfólio individual: Registros de desenhos, reconto, produções espontâneas e fotos das interações;
✔️ Diários de observação: Anotações do professor sobre falas, hipóteses de leitura e atitudes leitoras;
✔️ Relatórios descritivos: Textos que narram o desenvolvimento da criança ao longo do tempo;
✔️ Registros de família: Comentários simples que mostram como a criança interage com livros em casa.
A avaliação sensível permite ajustar práticas pedagógicas, apoiar cada criança de acordo com sua necessidade e valorizar conquistas importantes na formação do leitor.
Conclusão
Estimular a leitura na Pré-escola com jogos e histórias é uma das formas mais completas e eficazes de favorecer o desenvolvimento infantil. A leitura, quando vivida desde cedo de forma afetiva, prazerosa e lúdica, impacta não apenas a linguagem, mas também o pensamento, a imaginação, a criatividade, a autonomia e a capacidade de resolver problemas.
A BNCC orienta que as práticas pedagógicas da Educação Infantil devem garantir experiências de escuta, leitura e participação ativa em situações reais de linguagem (BRASIL, 2017). Isso significa que a formação de leitores começa muito antes da alfabetização formal — começa quando a criança ouve histórias, brinca com palavras, cria narrativas, participa de jogos verbais e explora livros de forma espontânea.
Autores como Vygotsky (1998), Ferreiro (1999) e Zilma de Oliveira (2010) reforçam a importância da imaginação, da interação e das práticas sociais na construção da leitura. Ao integrar jogos e histórias, a escola cria um ambiente motivador, onde a criança se vê como participante ativa do processo, capaz de interpretar, imaginar, perguntar, criar e reconstruir textos.
A leitura se torna, então, um gesto de afeto, descoberta e protagonismo — e não uma obrigação. É dessa forma que se formam leitores: na alegria, na fantasia e na participação ativa.
Referências
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação Infantil. Brasília, DF, 2018
MORAIS, Artur Gomes de. Consciência Fonológica. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.
OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2010.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014.
VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
ZABALZA, Miguel. Qualidade na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2006.
