A tecnologia é uma realidade onipresente na vida das crianças pequenas. Dispositivos como tablets, celulares e televisões integram o cotidiano familiar, moldando brincadeiras, curiosidades e a comunicação infantil. Nesse contexto, o desafio para os educadores da pré-escola é converter esses recursos, muitas vezes restritos ao entretenimento, em ferramentas pedagógicas potentes.
A BNCC (BRASIL, 2018) legitima essa integração ao estabelecer que as crianças devem ser “inseridas nas diferentes linguagens e práticas culturais, incluindo as tecnologias digitais”. Isso implica que o uso tecnológico na Educação Infantil não deve ser proibido, mas tampouco adotado de forma indiscriminada. O objetivo é alcançar um equilíbrio que preserve a essência da infância e a centralidade do brincar, enquanto amplia as fronteiras da aprendizagem.
Quando aplicada com intencionalidade, a tecnologia oferece benefícios significativos:
- Estímulo à criatividade e novas formas de expressão;
- Apoio ao registro e à documentação pedagógica;
- Enriquecimento de projetos investigativos;
- Promoção de uma alfabetização digital pautada na ética e na segurança.
Conforme defende Papert (1994), “a tecnologia não substitui o professor; ela amplia possibilidades quando usada com propósito”. A partir dessa premissa, este artigo explora as diretrizes para o uso pedagógico na pré-escola, abrangendo desde princípios fundamentais e atividades práticas até a necessária participação das famílias e normas de segurança.

A relação entre crianças pequenas e tecnologia
O convívio das crianças de pré-escola com a tecnologia inicia-se precocemente no ambiente familiar por meio de celulares, tablets e dispositivos inteligentes. No entanto, essa proximidade frequente não se traduz em um uso crítico, criativo ou educativo; reflete, prioritariamente, uma exposição passiva aos recursos. Nesse contexto, a escola assume o papel essencial de transmutar o contato espontâneo em uma experiência mediada e pedagógica.
É um equívoco comum supor que a facilidade com que os pequenos manipulam telas indique um domínio pleno da tecnologia. Conforme adverte Papert (1994), a verdadeira aprendizagem tecnológica exige que a criança pense, explore e construa, distanciando-se da mera passividade. O autor enfatiza que “a tecnologia só promove desenvolvimento quando permite que a criança construa algo com ela — ideias, projetos, pensamentos” (PAPERT, 1994).
Portanto, a simples oferta de dispositivos é insuficiente. A eficácia da tecnologia como ferramenta de desenvolvimento depende da intencionalidade pedagógica, transformando-a em um recurso rico capaz de ampliar horizontes e consolidar habilidades essenciais para a vida.
O que diz a BNCC sobre tecnologia na pré-escola?
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece a onipresença das linguagens digitais na sociedade contemporânea e estabelece que as crianças devem acessar práticas culturais que envolvam tecnologias, desde que de forma mediada, intencional e adequada à faixa etária. O documento não aborda o digital como um conteúdo estanque, mas como parte de experiências transversais que ampliam a expressão, a comunicação e a criação infantil.
A inserção tecnológica ganha destaque em campos de experiência específicos:
- Traços, sons, cores e formas: Incentiva a exploração de diversos materiais, incluindo os tecnológicos. Segundo o documento, “As crianças devem explorar diferentes instrumentos e recursos tecnológicos como meios de expressão e interação”.
- Escuta, fala, pensamento e imaginação: Posiciona as mídias digitais como suportes fundamentais para a apreciação e produção de histórias, músicas e outras manifestações culturais.
Para o grupo de crianças de 5 anos (EI03), as habilidades mencionam explicitamente a necessidade de explorar tecnologias como ferramentas de criação, utilizar recursos digitais em situações de aprendizagem e reconhecer diferentes linguagens e mídias.
Essas diretrizes reiteram que o uso tecnológico deve ultrapassar o consumo passivo de vídeos ou jogos isolados. A tecnologia deve servir como plataforma para expressar ideias, registrar descobertas e fomentar a interação. Embora o digital não substitua os pilares da Educação Infantil — como o movimento, o toque e o brincar — ele atua como um recurso potente que, sob mediação adequada, potencializa as experiências sensoriais e imaginativas das crianças.
Como usar tecnologia de forma pedagógica: princípios gerais
Integrar tecnologia na pré-escola exige uma mudança de paradigma: o foco sai do simples manuseio do dispositivo para uma integração intencional, equilibrada e educativa. Para que esses recursos efetivamente favoreçam o desenvolvimento infantil, seis princípios fundamentais devem orientar a prática docente:
Intencionalidade pedagógica
A tecnologia nunca deve figurar como um passatempo ou recurso para preencher o tempo livre. Cada atividade precisa de um objetivo pedagógico definido, seja para ampliar a investigação de um projeto, registrar descobertas ou criar produções coletivas que explorem novas linguagens digitais.
Mediação e interação social
A presença do professor é o que transforma o digital em experiência social. Cabe ao educador formular perguntas, ajudar na interpretação de imagens e convidar ao diálogo, garantindo que o uso da ferramenta aproxime as crianças em projetos colaborativos em vez de isolá-las.
Equilíbrio e continuidade
O digital deve estar intrinsecamente ligado à rotina concreta. Se as crianças utilizam o tablet para fotografar o pátio, essa ação deve desencadear uma atividade física, como a criação de um mural coletivo ou a dramatização de uma história ouvida em formato digital.
Zelo pela saúde e tempo de tela
A escola desempenha um papel educativo também junto às famílias ao seguir rigorosamente as diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Para crianças de 2 a 5 anos, o tempo de tela deve ser limitado a, no máximo, 1 hora diária, sempre sob supervisão ativa e como complemento às atividades motoras.
Segurança e curadoria
É responsabilidade da instituição garantir o uso de aplicativos apropriados à faixa etária, em ambientes livres de publicidade ou exposição indevida, mantendo supervisão permanente sobre os conteúdos acessados.
Recursos Digitais Pedagógicos e Estratégias de Aplicação
A tecnologia atua como uma ferramenta exploratória e criativa quando diversificamos os recursos utilizados:
Projetores e Lousas Digitais
Funcionam como janelas coletivas. São ideais para ampliar ilustrações de livros, exibir registros feitos pelos alunos ou comparar elementos da natureza (plantas e animais) coletados durante investigações no pátio, favorecendo a linguagem e a observação detalhada.
Aplicativos de Expressão Visual (ex: Kids Doodle, Sketchbook)
Permitem que a criança experimente traços e cores de forma lúdica. Podem ser usados para criar capas de livros da turma ou desenhar cenários para narrativas, estimulando a criatividade e a coordenação motora fina digital.
Realidade Aumentada (ex: Quiver)
Promove o encantamento ao permitir que desenhos físicos ganhem vida em 3D. É um recurso potente para explorar detalhes de objetos ou animais em tamanho real, fomentando o espírito investigativo.
Narrativas Digitais e Audiolivros
Suportes narrativos interativos que apoiam a oralidade. O professor pode propor que as crianças ouçam histórias em roda e, posteriormente, realizem recontos dramatizados, comparando diferentes versões de um mesmo conto.
Dispositivos de Registro (Câmeras e Tablets)
Transformam a criança em autora. O foco é o registro de processos: fotografar o crescimento de uma planta, o comportamento de insetos ou a construção de um castelo de blocos, culminando na produção de “livros-foto” ou murais digitais da turma.
Robótica Educativa (ex: Bee-Bot)
Robôs de chão programáveis que introduzem o pensamento computacional de forma concreta. Ao criar trajetos baseados em sequências lógicas para resolver problemas narrativos, as crianças desenvolvem cooperação e orientação espacial.
Música e Paisagens Sonoras
Aplicativos que simulam instrumentos permitem a exploração de ritmos e a criação de trilhas sonoras para os projetos da turma, além de possibilitar a gravação e manipulação de sons do próprio ambiente escolar.
Atividades Práticas: Integrando Tecnologia e Campos de Experiências
A integração tecnológica na Educação Infantil amplia o repertório de experiências e conecta diferentes linguagens aos projetos investigativos. Abaixo, apresentam-se propostas práticas fundamentadas nos Campos de Experiência da BNCC, priorizando o protagonismo infantil:
Fotógrafos da Natureza
Utilizando tablets ou câmeras digitais, as crianças exploram o ambiente externo para capturar elementos que despertam sua curiosidade, como texturas de folhas, insetos ou o jogo de luz e sombra. De volta à sala, os registros são apreciados via projetor, servindo de base para a criação de desenhos e murais (físicos e digitais). Esta atividade mobiliza os campos Traços, sons, cores e formas, Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações e O eu, o outro e o nós, desenvolvendo a observação científica e a autoria visual.
Livro Digital Coletivo
Através de aplicativos como Book Creator ou Canva, a turma constrói uma narrativa comum. O processo envolve ilustrações autorais (em papel ou digitais) e a captação de áudio com a narração dos pequenos. O resultado final, que pode ser impresso ou compartilhado digitalmente, fortalece a Escuta, fala, pensamento e imaginação, trabalhando a sequência narrativa e a leitura de mundo.
Caça ao Tesouro com QR Codes
Nesta proposta, o pátio é transformado em um circuito de desafios onde códigos QR escondem pistas em formato de fotos ou áudios. A resolução dos enigmas leva a um “tesouro” compartilhado, como um novo livro para a biblioteca da sala. A atividade integra tecnologia ao movimento, estimulando a cooperação e a resolução de problemas.
Laboratório Sonoro Digital
Com o apoio de aplicativos de captação sonora e simuladores de instrumentos, as crianças exploram e gravam sons do cotidiano e composições próprias para criar uma “orquestra da turma”. Esta prática pedagógica apura a percepção auditiva, a musicalidade e a sensorialidade, elementos centrais da expressão corporal.
Robótica e Narrativa
O Robô Contador de Histórias Utilizando robôs programáveis simples (como o Bee-Bot), as crianças devem planejar trajetos sobre um mapa ilustrado com personagens de uma história conhecida. Ao programar as paradas do robô, a criança reconstrói partes da narrativa, exercitando simultaneamente o pensamento lógico-matemático e a articulação da linguagem oral.
O Envolvimento da Família no Uso Saudável da Tecnologia
Para que o uso tecnológico seja efetivamente educativo, a convergência entre escola e família é indispensável. Como o contato com dispositivos costuma ser mais intenso no ambiente doméstico, a ausência de diretrizes claras pode expor as crianças a conteúdos impróprios ou ao uso pouco significativo. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta que o uso inadequado está associado a riscos como sedentarismo, prejuízo do sono, isolamento social e exposição à publicidade agressiva. Portanto, a parceria com os responsáveis visa transformar o digital em uma experiência equilibrada e segura.
Estratégias para Fortalecer a Parceria Educacional
A escola deve atuar como um centro de orientação, utilizando estratégias acolhedoras para qualificar o tempo de tela em casa:
Comunicação informativa
Utilizar canais oficiais para explicar a intencionalidade pedagógica das ferramentas digitais adotadas, reforçando o tempo máximo de tela recomendado de 1 hora diária para a faixa de 2 a 5 anos.
Curadoria de conteúdo
Fornecer listas de aplicativos que estimulem a criatividade, a apreciação musical e a exploração científica, desencorajando o uso de jogos repetitivos.
Projetos integradores
Propor atividades que envolvam a família, como a criação de álbuns de fotos da rotina doméstica, gravações de histórias narradas pelos pais ou desafios de caça ao tesouro mediadores por QR codes.
Letramento digital para pais
Realizar encontros breves sobre segurança digital, ensinando configurações de controle parental e métodos de supervisão ativa.
Promoção do equilíbrio
Orientar sistematicamente as famílias sobre a necessidade de alternar o uso do digital com experiências essenciais da infância, como o brincar livre, o movimento corporal e a leitura de livros físicos.
Ao planejar o uso pedagógico de forma compartilhada, professores e famílias garantem que a tecnologia atue como um recurso que amplia possibilidades sem comprometer o desenvolvimento saudável e a proteção necessária na primeira infância.
Diretrizes para a Curadoria e Segurança Digital
A introdução da tecnologia na pré-escola exige um planejamento que vai além da atividade em si, focando na proteção e na qualidade do conteúdo acessado. Para garantir uma experiência segura e produtiva, a escola deve adotar critérios rígidos de curadoria e conduta:
Critérios para seleção de aplicativos
Devem ser priorizados recursos sem anúncios ou compras internas, com linguagem adequada à faixa etária e que possuam objetivos claramente educativos, evitando ferramentas desenhadas apenas para a retenção passiva da atenção.
Protocolos de segurança digital
É fundamental ensinar às crianças regras básicas de autocuidado, como a importância de solicitar ajuda ao adulto diante de qualquer dúvida, não clicar em janelas flutuantes (pop-ups) e manter o volume em níveis saudáveis.
A primazia do concreto
Reitera-se que o digital atua apenas como um complemento. Nenhuma ferramenta tecnológica deve sobrepor-se às brincadeiras livres, ao movimento corporal, à exploração sensorial direta ou à interação face a face. Como destacam as diretrizes pedagógicas, o digital potencializa, mas nunca substitui a essência da infância.
Considerações Finais
A integração da tecnologia na pré-escola não deve ser compreendida como um fim em si mesma, mas como uma ferramenta estratégica que amplia as possibilidades de criação, comunicação e investigação quando utilizada com propósito pedagógico. Como discutido, o digital oferece novas janelas para o registro e a expressão infantil, contudo, em nenhuma circunstância deve substituir os pilares fundamentais do desenvolvimento: o brincar, a imaginação, o contato direto com a natureza e as interações humanas presenciais.
A BNCC (BRASIL, 2018) deixa claro que as linguagens digitais são parte inerente da vida contemporânea e que o acesso a elas, de forma saudável e significativa, é um direito de aprendizagem. Para que esse direito seja efetivado sem riscos, a mediação docente torna-se o elemento central. Conforme as reflexões de Papert (1994) e os pressupostos de Almeida (2010), a tecnologia só enriquece a aprendizagem quando é mediada por educadores intencionais, capazes de transformar o uso instrumental em uma experiência de construção de conhecimento articulada ao currículo e converter a ferramenta em um suporte para o pensamento crítico e criativo.
O desafio da escola moderna, portanto, não é isolar a criança do universo digital, mas educá-la para um uso equilibrado, ético e seguro. Ao estabelecer uma parceria sólida com as famílias e manter a intencionalidade em cada clique ou captura de imagem, a instituição de ensino garante que a tecnologia atue como um recurso que potencializa a infância, preparando os pequenos para conviver de forma plena e consciente em uma sociedade digital.
Referências
ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de. Tecnologias na Educação: ensinando e aprendendo com as TIC: Guia do Cursista. 2. ed. Brasília: Secretaria de Educação a Distância, 2010.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
PAPERT, Seymour. A máquina das crianças. Porto Alegre: Artmed, 1994.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Manual de Orientação – Saúde Digital. SBP, 2019.
